sábado, 12 de dezembro de 2009

Existente-vivente

Homem, ser
Confiante, no presente
Homem, vivente
De si ausente


Homem, ente
Dos demais, diferente,
Impulso insistente
Da felicidade, pretendente
Na aparência, contente


Homem, existente
Só consumo, inerente
Homem, vivente
A solidão, ingrediente


Entre Ser e Ente
Constante realidade
Oh, humano,
Pura alteridade!

sábado, 21 de novembro de 2009

Filosofia: realidade e dimensões

Temas:
1) Dimensões da Filosofia
2) Mecanismo do conhecimento (crença, verdade, justificação)
3) Senso comum, ciência, religião, arte e filosofia
4) Distinção entre Mithos e Logos

1) Dimensões da Filosofia
A filosofia pode surgir em três dimensões: a) como um saber sobre as coisas; b) como uma direção para o mundo e para a vida; c) como uma forma de vida, ou seja, como algo que acontece.
Nestas dimensões, a filosofia pode ser considerada como uma ciência ou um modo de vida, isto porque, da própria etimologia da palavra, verifica-se que filósofo é um homem que possui certo saber e o homem que se comporta e vive de modo peculiar. Ao mesmo tempo era especulação e vida teórica, já na Grécia Antiga, berço do pensamento ocidental, onde tais noções conviviam simultaneamente. Esta dualidade somente pode ser entendida no decorrer da própria realidade filosófica, vale dizer, na história da filosofia.

Como disse Julián Marias(1) a filosofia é um modo de vida essencial, que consiste em viver numa certa ciência e, portanto, uma ciência que determina o sentido da vida filosófica. Porém, que tipo de ciência? Qual a índole do saber filosófico?

2) Mecanismo do conhecimento
Para se ilustrar melhor a pergunta, há que se estabelecer o mecanismo do conhecimento, é preciso examinar seus componentes, os quais estão dispostos em uma base triangular, sendo eles a crença, a verdade e a justificação.

Em toda a ciência, o conhecimento inicia-se pela crença: acredita-se em algo e, a partir daí, são realizadas pesquisas, empíricas ou teóricas, para se aproximar mais da idéia desta crença e, deste modo, transformá-la em uma verdade. O conceito de crença reside em algo que se confia, uma hipótese que se pretende seja verificada, uma idéia cuja ocorrência, fática ou abstrata, tende-se a comprovar. Se na crença obtiver-se tal comprovação, então se alcança uma verdade.
O processo que permite a transformação de uma crença em uma verdade chama-se justificação. Portanto, justificação é o meio de provar a crença e convertê-la em verdade, sendo esta sempre uma crença justificada. O processo de justificação, dependendo de seu procedimento, pode ser mais dogmático ou mais crítico; no primeiro caso, aceitam-se postulados estruturados que fornecem base ao questionamento, enquanto no segundo, até mesmo a base do questionamento é também questionada, havendo constante crítica dos pressupostos(2).

3) Senso comum, ciência, religião, arte e filosofia
Toda ciência possui seu respectivo objeto de estudo e, por isso representa um conhecimento parcial sobre o todo, posto que se preocupa com uma parte dele. Pode-se dizer desta forma que a ciência fornece uma certeza parcial sobre o mundo. Há que haver, para que se possa aquilatar um saber com rigor a permitir certeza radical e universal, um conhecimento a partir do qual seja possível ordenar as demais certezas parciais. Assim, o conhecimento se destaca (pelo menos aparentemente) do senso comum, pois este é um saber generalizado, difuso, diluído sobre as coisas, dentro de dada comunidade. Senso comum, num primeiro momento é aquele modo de conhecer fornecido por um espaço intersubjetivo não questionado, por uma espécie de “espírito do povo” que cada um percebe em si, sem saber bem como explicar por quê.

Aqui se estabelece a diferença entre o conhecimento religioso e o filosófico, entre a religião e a filosofia, porque para a primeira basta a crença, sem que seja necessária qualquer justificação. Ou melhor, a justificação prende-se a um pressuposto único: o da verdade revelada. Com efeito, na religião trabalha-se com uma certeza recebida pelo homem, a qual não precisa ser justificada. Por decorrência, a verdade é fornecida e alcançada pela revelação e não necessita ser comprovada, nem demonstrada, vale dizer, dispensa a justificação como procedimento crítico.

Também se diferencia o conhecimento filosófico do conhecimento artístico. Neste, o alcance do saber também não é justificado. Ele é intuído. Ele é conhecido não pelo processo de justificação, mas por intuição, pelo recurso do sensível, da sensibilidade, do sentimento (não se deve esquecer que estética tem origem em expressão grega – aesthesis – cujo significado é sensação). O conhecimento artístico, portanto, é estético porque decorre da sensação, da impressão apreendida pelos sentimentos ou pelos sentidos, diante de determinado objeto. Não há necessidade de qualquer justificação, embora o sentimento produzido possa ser comentado ou explicado. O saber artístico não se justifica; é sempre apreendido. Mesmo assim, pode sofrer crítica no sentido de ser questionado sobre como se dá tal sensação. Em síntese, há sempre um tipo de procedimento de justificação, mais ou menos explícito.

Já o conhecimento filosófico sempre necessita de justificação crítica. O pensador parte de uma idéia suposta ou hipótese e busca meios de comprová-las. O pensamento filosófico é eterno processo de conhecer as coisas a partir delas mesmas e a tentativa de sua justificação para alcance da verdade.

Neste passo, aponta-se sua distinção com o conhecimento científico. Para este, o objeto, em primeiro lugar, é pressuposto e, portanto, não é questionado em si mesmo e, no que tange a justificação, o método usado, com algumas poucas variações entre as ciências, tem natureza causal.

O questionar-se sobre o objeto em si não faz parte, não é exigido, não é necessário ao conhecimento científico. Isto não é bom, nem mau em si mesmo; é apenas o modo do conhecer científico e que é suficiente para sua continuidade. O objeto para as ciências é dado e a partir dele são feitas pesquisas para se obter a verdade.

Com referência ao método, satisfaz-se na presença da chamada relação de causalidade, ou seja, basta para formação de tal saber que, dado um objeto, ele seja a causa de determinado resultado pretendido, de determinado efeito produzido, um vínculo denominado nexo de causalidade, para a obtenção da verdade. Por isto, diz-se que, para as ciências, basta a justificação causal, ou a presença de uma relação de causa e efeito em que haja um vínculo, um nexo de causalidade. O conhecimento científico é suficiente para o caminhar da humanidade, mas não é bastante para o homem, em cujo ser há uma “curiosidade” presente que o impele a questionar as coisas em maior profundidade a partir delas mesmas.

O conhecimento filosófico não se satisfaz somente assim. Há que haver o constante refletir sobre o próprio conhecimento, o especular (latim, speculare), que é referente a espelho, a refletir, examinar, observar, mirar, pesquisar, indagar.

4) Distinção entre Mithos e Logos
Mithos é termo grego que possui como significado principal a idéia de “palavra” ou “discurso”. Mas não palavra ou discurso no sentido que compreendemos hoje; trata-se de um discurso “escondido”, velado, não explícito e que somente pode ser compreendido por um grupo de pessoas que possua uma dada índole emocional comum.

Mito é uma narrativa que pretende explicar, por meio de forças, poderes ou seres superiores ao homem, a origem da realidade universal ou parte desta mesma realidade. A base de compreensão de tal narrativa é a crença e a tradição, no sentido de entrega, passagem do enredo mítico de um para outro. O mito difere-se da alegoria, pois esta é uma ficção, i.e., uma metáfora narrativa na qual se diz algo para se apresentar outro; não há uma realidade emocional velada.
O mito é uma narrativa de criação que conta como algo começou a ser, possuindo uma estrutura emocional de compreensão, pois evoca uma realidade primeva em sua plenitude, que satisfaz as profundas necessidades humanas, situadas além da consciência e da razão, por isto atingindo a emoção e criando uma realidade virtual. Brota de emoções profundamente humanas, mas não é em si emoção; é expressão dela, é a imagem (expressão simbólica) da emoção.

Funciona ou atua na vida social como um veículo a fixar modelos de realidade ou de atuação humana, por isto tem finalidade prática, visa uma atividade de objetivação, uma função objetiva. Esta se realiza no nível dos sentimentos, o que permite a construção de um “ethos”, de um modo de ser comunitário e, via de conseqüência, de um modelo de conduta política. O mito forma um modelo de sociedade.

A filosofia surge justamente para questionar o modelo de sociedade mítico. Por isto realiza-se a filosofia mediante atividade crítica constante e profunda, por meio da especulação de todos os pressupostos. Se os pressupostos residem na tradição da sociedade ou da comunidade, é esta que tem de ser questionada. Como se faz tal questionamento? Pelo Logos. Ou seja, pelo discurso, não mais o discurso velado, residente nas esferas emocionais, mas o discurso a ser colhido e recolhido (leguein=colher) pelo esforço de um princípio racional unificador da própria trama comunitária, que é o próprio Logos.

O Logos é objeto e instrumento. Nele está inserido, por ele se recolhe e dele nasce o conhecimento. Tudo está imerso no Logos. O modo de se relacionar com o Logos é que vai construir o modelo filosófico de cada pensador, cuja missão principal é a constante busca de toda sabedoria nele inserida e presente.

Esta é a intenção do saber filosófico. Por isto ele pode ser ciência e um modo de vida. Ciência, na medida em que busca verdades justificadas a partir de crenças que são questionadas em si mesmas, a partir de si mesmas e em todos os aspectos referentes a elas mesmas. E é um modo de condução de vida posto que, simultaneamente, se faz de modo especulativo e prático, pratica-se ao especular e especula-se ao praticar; fornece respostas abstratas para a vida concreta e, assim, permite uma vivência abstrata em pensamentos concretos e sempre, sempre em comunhão com o outro.

(1) MARIÁS, Julián. História da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 03.
(2) Ver como orientação MOSER, Paul K.; TROUT, J.D.; MULDER, Dwayne H. A teoria do conhecimento: uma introduçao temática. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Loucura especial

A loucura de viver na loucura
É a loucura de viver na doçura
A loucura de sentir a loucura
É a loucura de sentir a ternura


De sentir a vida sempre intensa
De saborear sua eterna presença
De decidir numa única sentença
Para que o amor sempre vença


A loucura de ser especial
É saber-se um ser racional
Integrar-se ao eu animal
Conhecer seu pensar emocional


A loucura de ser especial
É sempre estar de alto astral
Sem nada de externo adicional
Sem interiorizar o artificial


A loucura de ser especial
É perceber seu eu espacial
Integrá-lo a seu eu mental
Sem esquecer o sentimental


É refletir seu potencial
Num projeto multidimensional
E viver a vida integral
Desfrutando a felicidade total


Ao imergir na loucura especial

sábado, 24 de outubro de 2009

Testemunha de defesa

(Da série Diálogos Forenses - minicontos do mundo jurídico de até 50 letras)



- É esposa do réu?


- Sim, mas foi ele... É cafajeste mesmo.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Virtude em Aristóteles - breve inferência




Esta breve inferência trata do conceito de virtude (arethés – αρεθής) em Aristóteles, o qual é apresentado no Livro II da Ética a Nicômacos (1106b35) e vem expresso a seguir em duas diferentes traduções:

1) Tradução Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p.73
A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consistente numa mediania, isto é, mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática.

2) Tradução Mário da Gama Kury. Brasília: UnB, 1999, p.42
A excelência moral, então, é uma disposição da alma relacionada com a escolha de ações e emoções, disposição esta consistente num meio termo (meio termo relativo a nós) determinado pela razão (razão graças à qual um homem dotado de discernimento o determinaria).


Como se pode observar, em Aristóteles, a virtude é fruto de decisão (escolha), cuja constância produz o hábito (disposição da alma); é um trabalho prático peculiar ao homem que vive em grupo (mediania ou meio termo relativo a nós) produzido pela observação do phrônimos (homem dotado de sabedoria prática), isto é, aquele que reconhecidamente pelo grupo sabe observar as circunstâncias e a realidade na qual está inserido, pelo uso apropriado do logos. Assim, virtude não é uma faculdade ou qualidade natural do homem, mas uma conquista que o logos (característica exclusiva e qualificativa do ser humano) oferece e permite, porém, pelo trabalho em comunidade.

Glossário comparativo das traduções:
a) virtude = excelência moral = arethés
b) disposição de caráter relacionada com a escolha = disposição da alma relacionada com a escolha = hexis proairetikhé (hábito de decidir)
c) mediania = meio termo = mesotes
d) principio racional = razão = logos
e) homem dotado de sabedoria prática = homem dotado de discernimento = phrônimos (aquele que possui phrônesis = sabedoria prática = prudência)

domingo, 4 de outubro de 2009

Variações sobre Mithos e Logos


Mithos é termo grego que possui como significado principal a idéia de “palavra” ou “discurso”. Mas não palavra ou discurso no sentido que compreendemos hoje; trata-se de um discurso “escondido”, velado, não explícito e que somente pode ser compreendido por um grupo de pessoas que possua uma dada índole emocional comum.

Mito é uma narrativa que pretende explicar, por meio de forças, poderes ou seres superiores ao homem, a origem da realidade universal ou parte desta mesma realidade. A base de compreensão de tal narrativa é a crença e a tradição, no sentido de entrega, passagem do enredo mítico de um para outro. O mito difere-se da alegoria, pois esta é uma ficção, i.e., uma metáfora narrativa na qual se diz algo para se apresentar outro; não há uma realidade emocional velada.

O mito é uma narrativa de criação que conta como algo começou a ser, possuindo uma estrutura emocional de compreensão, pois evoca uma realidade primeva em sua plenitude, que satisfaz as profundas necessidades humanas, situadas além da consciência e da razão, por isto atingindo a emoção e criando uma realidade virtual. Brota de emoções profundamente humanas, mas não é em si emoção; é expressão dela, é a imagem (expressão simbólica) da emoção.

Funciona ou atua na vida social como um veículo a fixar modelos de realidade ou de atuação humana, por isto tem finalidade prática, visa uma atividade de objetivação, uma função objetiva. Esta se realiza no nível dos sentimentos, o que permite a construção de um “ethos”, de um modo de ser comunitário e, via de conseqüência, de um modelo de conduta política. O mito forma um modelo de sociedade.

A filosofia surge justamente para questionar o modelo de sociedade mítico. Por isto realiza-se a filosofia mediante atividade crítica constante e profunda, por meio da especulação de todos os pressupostos. Se os pressupostos residem na tradição da sociedade ou da comunidade, é esta que tem de ser questionada. Como se faz tal questionamento? Pelo Logos. Ou seja, pelo discurso, não mais o discurso velado, residente nas esferas emocionais, mas o discurso a ser colhido e recolhido (leguein=colher), constantemente, pela força e uso de um princípio racional unificador da trama comunitária, que é o próprio Logos.

O Logos é objeto e instrumento. Nele está inserido, por ele se recolhe e dele nasce o conhecimento. Tudo está imerso no Logos. O modo de se relacionar com o Logos é que vai construir o modelo filosófico de cada pensador, cuja missão principal é a constante busca de toda sabedoria nele inserida e presente.

Esta é a intenção do saber filosófico. Por isto ele pode ser ciência e um modo de vida. Ciência, na medida em que busca verdades justificadas a partir de crenças que são questionadas em si mesmas, a partir de si mesmas e em todos os aspectos referentes a elas mesmas. E é um modo de condução de vida posto que, simultaneamente, se faz de modo especulativo e prático, pratica-se ao especular e especula-se ao praticar; fornece respostas abstratas para a vida concreta e, assim, permite uma vivência abstrata em pensamentos concretos e sempre, sempre em comunhão com o outro.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Decálogo do escritor


I – Pense antes de escrever. Qualquer tipo de escrita, antes de tomar forma de texto, deve existir na mente do autor.

II – Escreva para os leitores e não para si mesmo. O texto é um diálogo do autor com outros e não consigo mesmo. Escrever para si mesmo resulta em excesso de subjetividade e falta de clareza.

III – Não peça para amigos avaliarem seus textos. Muitos elogios são apenas fruto de sociabilidade. A avaliação deve ser feita por quem realmente analise seu trabalho, mesmo que seja seu amigo.

IV – Copiar estilos é normal para quem se inicia, afinal há muitos bons exemplos de escrita agradável, sedutora e bem sucedida. Escrever uma grande obra é o sonho de todo escritor e nada melhor do que beber em fontes seguras.

V – Busque seu próprio estilo. Há sempre um modo novo, interessante ou curioso de abordar um tema. A melhor forma de naufragar é tentar ser quem não se é. Alguns possuem habilidade para textos literários, outros para textos técnicos; alguns demonstram aptidão para ficção nas suas mais variadas formas, em prosa ou poesia e outros, para não-ficção. Descubra seu lugar.

VI – Seja claro, simples e objetivo. Se o leitor tiver que ler várias vezes o texto para entendê-lo, o trabalho está mal escrito.

VII – Não queira tornar-se um bom escritor antes de ser um bom leitor. Estude e leia tudo que estiver relacionado a esta atividade. Na escrita, 99% é trabalho e 1% é inspiração. Há muitos autores que se nomeiam autênticos porque não querem conhecer seus predecessores.

VIII – Pense sempre no leitor. Se for uma história ou ficção, como o leitor deve tomar conhecimento dela de forma a estimular suas sensações? Se não é ficção, que informações ele deve encontrar para que mereça sua leitura?

IX – Respeite seu argumento. A diferença entre conversar sobre um tema e apresentar o mesmo tema num livro é que o autor deve gastar todo o tempo possível na elaboração da idéia central e na forma de transmiti-la.

X – Ao descobrir o argumento, estruture uma ordem crescente de desenvolvimento e crie elementos para manter o interesse em todo o texto. Elabore a linguagem de modo singelo, sem afetação ou pedantismo e crie imagens na cabeça do leitor.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Oração a Pan

(Homenagem a Fedro de Platão)



Floresça em mim somente a interna beleza
Que a sabedoria seja minha riqueza
Que do ouro do rico a conquistar
Tenha eu apenas o que possa pegar e levar.



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sábado, 11 de abril de 2009

Felizes para sempre

(Diálogos forenses - Minicontos do mundo jurídico de até 50 letras)

- Quando decidiram casar?

- Ele, na audiência; ela, após o estupro.



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sexta-feira, 10 de abril de 2009

Prisão

Numa noite longa e tormentosa
Em que o tempo parou sua hora
Tive minha liberdade perdida
Para jamais conhecer a aurora

Trancado numa cela fria
Não via nem poderia
Perceber o alternar da noite e dia.

Para que serve a prisão?
Isolar da sociedade o criminoso!
Pode um homem no segundo de um ato,
Transformar-se em ser tão odioso?

Para que serve a prisão?
Atribuir um mal a outro mal cometido?
Retribuir o que de errado se praticou?
Conserta-se o erro com o castigo infligido?

Para que serve a prisão?
Arrancar da alma a ilusão!
Retirar da vida o coração!
Inserir no peito o gérmen da podridão

Com o espírito apodrecido
Não pode o homem refletir
Por este ciclo, assim embrutecido,
Não haverá nunca o progredir

Mergulhado em espiral de destruição
Desligar-se-á de qualquer motivação
O espaço será só violência
Longe de si e de sua consciência

A verdadeira punição
É a que traz redenção
Nunca desintegração!
Mas o eu em construção.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Oração a Eros

“O cristianismo deu veneno de beber a Eros; mas este não morreu, degenerou-se em vício. (Nietzsche)”.

“Deus é amor e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (João: I/4,16)



Ouvi minha oração, mundo
Que ouve somente vingança, ódio, violência.
Se o Amor nos é fundamental,
Onde encontro sua existência?

Amor, palavra repleta de significados
Porém, de compreensão desencontrada
Amor à pátria, à profissão, aos amigos
Aos pais, ao próximo, à namorada.

Amor entre homem e mulher
Promessa de felicidade e calma
De tamanho campo semântico
É o único a unir corpo e alma

Amor entre homem e mulher
Não nasce da inteligência ou vontade
Vem da natureza e não fere
Porque é imposto em suavidade

Eros, Filia e Ágape
Na Antiguidade, sua denominação
Cada qual com seu espectro
Mas de integrada significação

Filia é o amor do amante
Que suave deseja em plenitude
É o amor do Filósofo à sabedoria
À verdade, ao bem e à virtude

Ágape é o amor do amante
Que do outro propõe a descoberta
É a expressão da experiência
De entrega da individualidade aberta

E Eros? Eros é um deus
Responsável pela criação!
Já o diziam Homero e Hesíodo
E Sócrates a Fedro, em Platão

Erram aqueles que o vêem
Somente na satisfação do apetite
Tal qual ao cordeiro ama o lobo
O amante ao amado dirige tal convite

Eros é uma divindade
Luz ao coração
É elo para o humano
Com a eternidade da superação

Eros é o dom da inspiração
A ascensão e a loucura profética
Num doce arrebatar da alma
Mergulhando-a na real arte poética

Eros é a causa primeira
A animar toda existência
É o sublimar amplo da razão
No decorrer de nossa vivência

Não é a estática da posse
Eros é mudança e movimento
É a eternidade e a constância
No devir do aperfeiçoamento

Eros é a plenitude do amor
Não a devastadora e falsa divinização
Não jamais a odiosa instrumentalização
Mas a completa humanização

Entre o homem e a mulher
Quando Eros se faz presente
Há a eternidade do infinito
Integrada num só ente

Eu fui ao Eros apresentado
Pela canção da Musa delicada
Por um doce sorriso alvinitente
Pelo perfume da rosa desabrochada

Eu fui do Eros distanciado
Em uma noite angustiosa;
Nas estrelas sem brilho
A Lua jazia preguiçosa

Eros, a tão desejada divindade,
De veneno foi embriagado;
Por óbvio não morreu
Mas em vício acabou degenerado

Por que de mim
Foi o amor retirado?
É tão grave meu pecado?
Ouvi minha prece, oh, Eros
E não me deixeis abandonado

sábado, 4 de abril de 2009

Crônica de um consumidor de livros

Ao toque do telefone, atende uma voz feminina do outro lado, que se identifica pelo nome da empresa na qual trabalha. Do lado de cá o sujeito pergunta sobre a possibilidade de uma informação. Diz respeito a um livro já usado que ganhara de outra possuidora, uma conhecida sua, há algum tempo e a quem já não via. No livro faltavam páginas correspondentes a um caderno e que cobriam um capítulo.

O sujeito pretendia saber se era possível efetuar-se a troca do livro. Foram então feitas perguntas protocolares sobre o título, autor, nome da coleção, número respectivo também da coleção. Passados tais dados, foi feita a pergunta sobre o ano da edição. “1971”, foi a resposta.

– Ah, responde a moça. – É muito antigo! É muito antigo.

– Sim, diz o sujeito. – É antigo, mas minha intenção é saber se neste caso seria possível para a editora efetuar uma troca.

– Hum, não sei, acho que não, pois é muito antigo.

– Perfeito, já compreendi, o livro é antigo, foi não propriamente um presente, mas me foi dado e, como diz o ditado, cavalo dado não se olham os dentes. Apenas percebi que falta um caderno. Por isto mesmo estou ligando: para saber o que é possível fazer.

– Aguarde um momento, por favor.

A moça se distancia do telefone e fala com alguém próximo. São ouvidos murmúrios, enquanto o sujeito aguarda. Seria interessante se fosse possível trocar o livro. Para os apaixonados por livros, os quais também amam a leitura – quase criminosos em tempos atuais – falar, tocar, cheirar um livro são atitudes absolutamente prazerosas, equivalentes a saborear um delicioso prato, praticamente o que ocorre pelo ato de ler. Velho, o livro traz uma história, muitas vezes passível de ser decifrada. Novo, é percurso inicial na construção de um cosmos. O mergulho na leitura cria sempre outro universo na vivência do leitor, mas ele não permanece no nível intuitivo. É possível degustá-lo “fisicamente”. Ler um livro é uma atividade do paladar.

– Alô, diz a moça.

– Sim?

– Olhe, verifiquei aqui. Pode vir trocar o livro.

– Mesmo? Que bom! Com quem posso falar?

– Qualquer pessoa! Já estão sabendo e vão atendê-lo. Pode trocar o livro.

– Muito obrigado pela atenção. Fico feliz com a gentileza, diz o sujeito, que em seguida se despede e desliga o telefone.

Cerca de uma hora depois, tempo médio de deslocamento para distancias não muito longas do paulistano, o sujeito se encontra na editora. É atendido por um jovem, o qual o faz relatar novamente todo o assunto. Ao pegar o livro, o atendente diz que não se trata de defeito, mas de falta de um caderno. O sujeito responde que já havia explicado isto e que, mesmo assim, havia sido autorizada a troca. Tendo ouvido um “vou verificar”, o sujeito ficou aguardando.

Quando retornou, o atendente, ressaltando o peso de cada palavra, afirmou que não efetuaria a troca, pois faltava o caderno que fora arrancado. O sujeito tentou argumentar que recebera o livro daquela forma e que ligara antes para se certificar. Disse ainda que entendia não ser obrigatória a troca, mas não conseguia compreender por que fazê-lo ir até a editora para receber tal resposta. E mais, por que falar ao telefone que era só levar o livro para trocar? Por que não usar outro modo condicional de atendimento, como “traga o livro para ver se é possível a troca”?

Não trocamos, foi o que ouviu o sujeito e nada podia ser feito, nem sequer falar com a pessoa que autorizara a troca por telefone. Por que permitir o deslocamento era algo que o sujeito não conseguia compreender. No mínimo, uma falta de atenção ao consumidor. Você pode comprar o livro com desconto, se quiser. Não trocamos, nem sequer atendemos pessoas diretamente na empresa. Por que fazer o sujeito ir à editora então?

Não trocamos, fale com sua amiga, pegue o livro, vire-se, estas expressões remoíam o sujeito, sentimento indefinido que lembrava uma indigestão, quando ele alcançou o passeio. Caminhando, passou por ele um andarilho, que as regras do politicamente correto mandam chamar de morador de rua, quando na verdade é um pobre diabo, único cidadão com a consciência verdadeira da crueza de viver numa sociedade socialmente injusta, construída de aparências. O sujeito não prestou muita atenção – ninguém o faz – até ouvir uma frase solta, não dirigida diretamente a ninguém:

– Eu não quero esmola! Quero apenas ser escutado.

E continuou seu caminho sem rumo, sendo observado meditativamente pelo sujeito.