sábado, 4 de abril de 2009

Crônica de um consumidor de livros

Ao toque do telefone, atende uma voz feminina do outro lado, que se identifica pelo nome da empresa na qual trabalha. Do lado de cá o sujeito pergunta sobre a possibilidade de uma informação. Diz respeito a um livro já usado que ganhara de outra possuidora, uma conhecida sua, há algum tempo e a quem já não via. No livro faltavam páginas correspondentes a um caderno e que cobriam um capítulo.

O sujeito pretendia saber se era possível efetuar-se a troca do livro. Foram então feitas perguntas protocolares sobre o título, autor, nome da coleção, número respectivo também da coleção. Passados tais dados, foi feita a pergunta sobre o ano da edição. “1971”, foi a resposta.

– Ah, responde a moça. – É muito antigo! É muito antigo.

– Sim, diz o sujeito. – É antigo, mas minha intenção é saber se neste caso seria possível para a editora efetuar uma troca.

– Hum, não sei, acho que não, pois é muito antigo.

– Perfeito, já compreendi, o livro é antigo, foi não propriamente um presente, mas me foi dado e, como diz o ditado, cavalo dado não se olham os dentes. Apenas percebi que falta um caderno. Por isto mesmo estou ligando: para saber o que é possível fazer.

– Aguarde um momento, por favor.

A moça se distancia do telefone e fala com alguém próximo. São ouvidos murmúrios, enquanto o sujeito aguarda. Seria interessante se fosse possível trocar o livro. Para os apaixonados por livros, os quais também amam a leitura – quase criminosos em tempos atuais – falar, tocar, cheirar um livro são atitudes absolutamente prazerosas, equivalentes a saborear um delicioso prato, praticamente o que ocorre pelo ato de ler. Velho, o livro traz uma história, muitas vezes passível de ser decifrada. Novo, é percurso inicial na construção de um cosmos. O mergulho na leitura cria sempre outro universo na vivência do leitor, mas ele não permanece no nível intuitivo. É possível degustá-lo “fisicamente”. Ler um livro é uma atividade do paladar.

– Alô, diz a moça.

– Sim?

– Olhe, verifiquei aqui. Pode vir trocar o livro.

– Mesmo? Que bom! Com quem posso falar?

– Qualquer pessoa! Já estão sabendo e vão atendê-lo. Pode trocar o livro.

– Muito obrigado pela atenção. Fico feliz com a gentileza, diz o sujeito, que em seguida se despede e desliga o telefone.

Cerca de uma hora depois, tempo médio de deslocamento para distancias não muito longas do paulistano, o sujeito se encontra na editora. É atendido por um jovem, o qual o faz relatar novamente todo o assunto. Ao pegar o livro, o atendente diz que não se trata de defeito, mas de falta de um caderno. O sujeito responde que já havia explicado isto e que, mesmo assim, havia sido autorizada a troca. Tendo ouvido um “vou verificar”, o sujeito ficou aguardando.

Quando retornou, o atendente, ressaltando o peso de cada palavra, afirmou que não efetuaria a troca, pois faltava o caderno que fora arrancado. O sujeito tentou argumentar que recebera o livro daquela forma e que ligara antes para se certificar. Disse ainda que entendia não ser obrigatória a troca, mas não conseguia compreender por que fazê-lo ir até a editora para receber tal resposta. E mais, por que falar ao telefone que era só levar o livro para trocar? Por que não usar outro modo condicional de atendimento, como “traga o livro para ver se é possível a troca”?

Não trocamos, foi o que ouviu o sujeito e nada podia ser feito, nem sequer falar com a pessoa que autorizara a troca por telefone. Por que permitir o deslocamento era algo que o sujeito não conseguia compreender. No mínimo, uma falta de atenção ao consumidor. Você pode comprar o livro com desconto, se quiser. Não trocamos, nem sequer atendemos pessoas diretamente na empresa. Por que fazer o sujeito ir à editora então?

Não trocamos, fale com sua amiga, pegue o livro, vire-se, estas expressões remoíam o sujeito, sentimento indefinido que lembrava uma indigestão, quando ele alcançou o passeio. Caminhando, passou por ele um andarilho, que as regras do politicamente correto mandam chamar de morador de rua, quando na verdade é um pobre diabo, único cidadão com a consciência verdadeira da crueza de viver numa sociedade socialmente injusta, construída de aparências. O sujeito não prestou muita atenção – ninguém o faz – até ouvir uma frase solta, não dirigida diretamente a ninguém:

– Eu não quero esmola! Quero apenas ser escutado.

E continuou seu caminho sem rumo, sendo observado meditativamente pelo sujeito.

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