quarta-feira, 8 de abril de 2009

Oração a Eros

“O cristianismo deu veneno de beber a Eros; mas este não morreu, degenerou-se em vício. (Nietzsche)”.

“Deus é amor e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (João: I/4,16)



Ouvi minha oração, mundo
Que ouve somente vingança, ódio, violência.
Se o Amor nos é fundamental,
Onde encontro sua existência?

Amor, palavra repleta de significados
Porém, de compreensão desencontrada
Amor à pátria, à profissão, aos amigos
Aos pais, ao próximo, à namorada.

Amor entre homem e mulher
Promessa de felicidade e calma
De tamanho campo semântico
É o único a unir corpo e alma

Amor entre homem e mulher
Não nasce da inteligência ou vontade
Vem da natureza e não fere
Porque é imposto em suavidade

Eros, Filia e Ágape
Na Antiguidade, sua denominação
Cada qual com seu espectro
Mas de integrada significação

Filia é o amor do amante
Que suave deseja em plenitude
É o amor do Filósofo à sabedoria
À verdade, ao bem e à virtude

Ágape é o amor do amante
Que do outro propõe a descoberta
É a expressão da experiência
De entrega da individualidade aberta

E Eros? Eros é um deus
Responsável pela criação!
Já o diziam Homero e Hesíodo
E Sócrates a Fedro, em Platão

Erram aqueles que o vêem
Somente na satisfação do apetite
Tal qual ao cordeiro ama o lobo
O amante ao amado dirige tal convite

Eros é uma divindade
Luz ao coração
É elo para o humano
Com a eternidade da superação

Eros é o dom da inspiração
A ascensão e a loucura profética
Num doce arrebatar da alma
Mergulhando-a na real arte poética

Eros é a causa primeira
A animar toda existência
É o sublimar amplo da razão
No decorrer de nossa vivência

Não é a estática da posse
Eros é mudança e movimento
É a eternidade e a constância
No devir do aperfeiçoamento

Eros é a plenitude do amor
Não a devastadora e falsa divinização
Não jamais a odiosa instrumentalização
Mas a completa humanização

Entre o homem e a mulher
Quando Eros se faz presente
Há a eternidade do infinito
Integrada num só ente

Eu fui ao Eros apresentado
Pela canção da Musa delicada
Por um doce sorriso alvinitente
Pelo perfume da rosa desabrochada

Eu fui do Eros distanciado
Em uma noite angustiosa;
Nas estrelas sem brilho
A Lua jazia preguiçosa

Eros, a tão desejada divindade,
De veneno foi embriagado;
Por óbvio não morreu
Mas em vício acabou degenerado

Por que de mim
Foi o amor retirado?
É tão grave meu pecado?
Ouvi minha prece, oh, Eros
E não me deixeis abandonado

Nenhum comentário: