sábado, 24 de outubro de 2009

Testemunha de defesa

(Da série Diálogos Forenses - minicontos do mundo jurídico de até 50 letras)



- É esposa do réu?


- Sim, mas foi ele... É cafajeste mesmo.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Virtude em Aristóteles - breve inferência




Esta breve inferência trata do conceito de virtude (arethés – αρεθής) em Aristóteles, o qual é apresentado no Livro II da Ética a Nicômacos (1106b35) e vem expresso a seguir em duas diferentes traduções:

1) Tradução Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p.73
A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consistente numa mediania, isto é, mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática.

2) Tradução Mário da Gama Kury. Brasília: UnB, 1999, p.42
A excelência moral, então, é uma disposição da alma relacionada com a escolha de ações e emoções, disposição esta consistente num meio termo (meio termo relativo a nós) determinado pela razão (razão graças à qual um homem dotado de discernimento o determinaria).


Como se pode observar, em Aristóteles, a virtude é fruto de decisão (escolha), cuja constância produz o hábito (disposição da alma); é um trabalho prático peculiar ao homem que vive em grupo (mediania ou meio termo relativo a nós) produzido pela observação do phrônimos (homem dotado de sabedoria prática), isto é, aquele que reconhecidamente pelo grupo sabe observar as circunstâncias e a realidade na qual está inserido, pelo uso apropriado do logos. Assim, virtude não é uma faculdade ou qualidade natural do homem, mas uma conquista que o logos (característica exclusiva e qualificativa do ser humano) oferece e permite, porém, pelo trabalho em comunidade.

Glossário comparativo das traduções:
a) virtude = excelência moral = arethés
b) disposição de caráter relacionada com a escolha = disposição da alma relacionada com a escolha = hexis proairetikhé (hábito de decidir)
c) mediania = meio termo = mesotes
d) principio racional = razão = logos
e) homem dotado de sabedoria prática = homem dotado de discernimento = phrônimos (aquele que possui phrônesis = sabedoria prática = prudência)

domingo, 4 de outubro de 2009

Variações sobre Mithos e Logos


Mithos é termo grego que possui como significado principal a idéia de “palavra” ou “discurso”. Mas não palavra ou discurso no sentido que compreendemos hoje; trata-se de um discurso “escondido”, velado, não explícito e que somente pode ser compreendido por um grupo de pessoas que possua uma dada índole emocional comum.

Mito é uma narrativa que pretende explicar, por meio de forças, poderes ou seres superiores ao homem, a origem da realidade universal ou parte desta mesma realidade. A base de compreensão de tal narrativa é a crença e a tradição, no sentido de entrega, passagem do enredo mítico de um para outro. O mito difere-se da alegoria, pois esta é uma ficção, i.e., uma metáfora narrativa na qual se diz algo para se apresentar outro; não há uma realidade emocional velada.

O mito é uma narrativa de criação que conta como algo começou a ser, possuindo uma estrutura emocional de compreensão, pois evoca uma realidade primeva em sua plenitude, que satisfaz as profundas necessidades humanas, situadas além da consciência e da razão, por isto atingindo a emoção e criando uma realidade virtual. Brota de emoções profundamente humanas, mas não é em si emoção; é expressão dela, é a imagem (expressão simbólica) da emoção.

Funciona ou atua na vida social como um veículo a fixar modelos de realidade ou de atuação humana, por isto tem finalidade prática, visa uma atividade de objetivação, uma função objetiva. Esta se realiza no nível dos sentimentos, o que permite a construção de um “ethos”, de um modo de ser comunitário e, via de conseqüência, de um modelo de conduta política. O mito forma um modelo de sociedade.

A filosofia surge justamente para questionar o modelo de sociedade mítico. Por isto realiza-se a filosofia mediante atividade crítica constante e profunda, por meio da especulação de todos os pressupostos. Se os pressupostos residem na tradição da sociedade ou da comunidade, é esta que tem de ser questionada. Como se faz tal questionamento? Pelo Logos. Ou seja, pelo discurso, não mais o discurso velado, residente nas esferas emocionais, mas o discurso a ser colhido e recolhido (leguein=colher), constantemente, pela força e uso de um princípio racional unificador da trama comunitária, que é o próprio Logos.

O Logos é objeto e instrumento. Nele está inserido, por ele se recolhe e dele nasce o conhecimento. Tudo está imerso no Logos. O modo de se relacionar com o Logos é que vai construir o modelo filosófico de cada pensador, cuja missão principal é a constante busca de toda sabedoria nele inserida e presente.

Esta é a intenção do saber filosófico. Por isto ele pode ser ciência e um modo de vida. Ciência, na medida em que busca verdades justificadas a partir de crenças que são questionadas em si mesmas, a partir de si mesmas e em todos os aspectos referentes a elas mesmas. E é um modo de condução de vida posto que, simultaneamente, se faz de modo especulativo e prático, pratica-se ao especular e especula-se ao praticar; fornece respostas abstratas para a vida concreta e, assim, permite uma vivência abstrata em pensamentos concretos e sempre, sempre em comunhão com o outro.