sábado, 21 de novembro de 2009

Filosofia: realidade e dimensões

Temas:
1) Dimensões da Filosofia
2) Mecanismo do conhecimento (crença, verdade, justificação)
3) Senso comum, ciência, religião, arte e filosofia
4) Distinção entre Mithos e Logos

1) Dimensões da Filosofia
A filosofia pode surgir em três dimensões: a) como um saber sobre as coisas; b) como uma direção para o mundo e para a vida; c) como uma forma de vida, ou seja, como algo que acontece.
Nestas dimensões, a filosofia pode ser considerada como uma ciência ou um modo de vida, isto porque, da própria etimologia da palavra, verifica-se que filósofo é um homem que possui certo saber e o homem que se comporta e vive de modo peculiar. Ao mesmo tempo era especulação e vida teórica, já na Grécia Antiga, berço do pensamento ocidental, onde tais noções conviviam simultaneamente. Esta dualidade somente pode ser entendida no decorrer da própria realidade filosófica, vale dizer, na história da filosofia.

Como disse Julián Marias(1) a filosofia é um modo de vida essencial, que consiste em viver numa certa ciência e, portanto, uma ciência que determina o sentido da vida filosófica. Porém, que tipo de ciência? Qual a índole do saber filosófico?

2) Mecanismo do conhecimento
Para se ilustrar melhor a pergunta, há que se estabelecer o mecanismo do conhecimento, é preciso examinar seus componentes, os quais estão dispostos em uma base triangular, sendo eles a crença, a verdade e a justificação.

Em toda a ciência, o conhecimento inicia-se pela crença: acredita-se em algo e, a partir daí, são realizadas pesquisas, empíricas ou teóricas, para se aproximar mais da idéia desta crença e, deste modo, transformá-la em uma verdade. O conceito de crença reside em algo que se confia, uma hipótese que se pretende seja verificada, uma idéia cuja ocorrência, fática ou abstrata, tende-se a comprovar. Se na crença obtiver-se tal comprovação, então se alcança uma verdade.
O processo que permite a transformação de uma crença em uma verdade chama-se justificação. Portanto, justificação é o meio de provar a crença e convertê-la em verdade, sendo esta sempre uma crença justificada. O processo de justificação, dependendo de seu procedimento, pode ser mais dogmático ou mais crítico; no primeiro caso, aceitam-se postulados estruturados que fornecem base ao questionamento, enquanto no segundo, até mesmo a base do questionamento é também questionada, havendo constante crítica dos pressupostos(2).

3) Senso comum, ciência, religião, arte e filosofia
Toda ciência possui seu respectivo objeto de estudo e, por isso representa um conhecimento parcial sobre o todo, posto que se preocupa com uma parte dele. Pode-se dizer desta forma que a ciência fornece uma certeza parcial sobre o mundo. Há que haver, para que se possa aquilatar um saber com rigor a permitir certeza radical e universal, um conhecimento a partir do qual seja possível ordenar as demais certezas parciais. Assim, o conhecimento se destaca (pelo menos aparentemente) do senso comum, pois este é um saber generalizado, difuso, diluído sobre as coisas, dentro de dada comunidade. Senso comum, num primeiro momento é aquele modo de conhecer fornecido por um espaço intersubjetivo não questionado, por uma espécie de “espírito do povo” que cada um percebe em si, sem saber bem como explicar por quê.

Aqui se estabelece a diferença entre o conhecimento religioso e o filosófico, entre a religião e a filosofia, porque para a primeira basta a crença, sem que seja necessária qualquer justificação. Ou melhor, a justificação prende-se a um pressuposto único: o da verdade revelada. Com efeito, na religião trabalha-se com uma certeza recebida pelo homem, a qual não precisa ser justificada. Por decorrência, a verdade é fornecida e alcançada pela revelação e não necessita ser comprovada, nem demonstrada, vale dizer, dispensa a justificação como procedimento crítico.

Também se diferencia o conhecimento filosófico do conhecimento artístico. Neste, o alcance do saber também não é justificado. Ele é intuído. Ele é conhecido não pelo processo de justificação, mas por intuição, pelo recurso do sensível, da sensibilidade, do sentimento (não se deve esquecer que estética tem origem em expressão grega – aesthesis – cujo significado é sensação). O conhecimento artístico, portanto, é estético porque decorre da sensação, da impressão apreendida pelos sentimentos ou pelos sentidos, diante de determinado objeto. Não há necessidade de qualquer justificação, embora o sentimento produzido possa ser comentado ou explicado. O saber artístico não se justifica; é sempre apreendido. Mesmo assim, pode sofrer crítica no sentido de ser questionado sobre como se dá tal sensação. Em síntese, há sempre um tipo de procedimento de justificação, mais ou menos explícito.

Já o conhecimento filosófico sempre necessita de justificação crítica. O pensador parte de uma idéia suposta ou hipótese e busca meios de comprová-las. O pensamento filosófico é eterno processo de conhecer as coisas a partir delas mesmas e a tentativa de sua justificação para alcance da verdade.

Neste passo, aponta-se sua distinção com o conhecimento científico. Para este, o objeto, em primeiro lugar, é pressuposto e, portanto, não é questionado em si mesmo e, no que tange a justificação, o método usado, com algumas poucas variações entre as ciências, tem natureza causal.

O questionar-se sobre o objeto em si não faz parte, não é exigido, não é necessário ao conhecimento científico. Isto não é bom, nem mau em si mesmo; é apenas o modo do conhecer científico e que é suficiente para sua continuidade. O objeto para as ciências é dado e a partir dele são feitas pesquisas para se obter a verdade.

Com referência ao método, satisfaz-se na presença da chamada relação de causalidade, ou seja, basta para formação de tal saber que, dado um objeto, ele seja a causa de determinado resultado pretendido, de determinado efeito produzido, um vínculo denominado nexo de causalidade, para a obtenção da verdade. Por isto, diz-se que, para as ciências, basta a justificação causal, ou a presença de uma relação de causa e efeito em que haja um vínculo, um nexo de causalidade. O conhecimento científico é suficiente para o caminhar da humanidade, mas não é bastante para o homem, em cujo ser há uma “curiosidade” presente que o impele a questionar as coisas em maior profundidade a partir delas mesmas.

O conhecimento filosófico não se satisfaz somente assim. Há que haver o constante refletir sobre o próprio conhecimento, o especular (latim, speculare), que é referente a espelho, a refletir, examinar, observar, mirar, pesquisar, indagar.

4) Distinção entre Mithos e Logos
Mithos é termo grego que possui como significado principal a idéia de “palavra” ou “discurso”. Mas não palavra ou discurso no sentido que compreendemos hoje; trata-se de um discurso “escondido”, velado, não explícito e que somente pode ser compreendido por um grupo de pessoas que possua uma dada índole emocional comum.

Mito é uma narrativa que pretende explicar, por meio de forças, poderes ou seres superiores ao homem, a origem da realidade universal ou parte desta mesma realidade. A base de compreensão de tal narrativa é a crença e a tradição, no sentido de entrega, passagem do enredo mítico de um para outro. O mito difere-se da alegoria, pois esta é uma ficção, i.e., uma metáfora narrativa na qual se diz algo para se apresentar outro; não há uma realidade emocional velada.
O mito é uma narrativa de criação que conta como algo começou a ser, possuindo uma estrutura emocional de compreensão, pois evoca uma realidade primeva em sua plenitude, que satisfaz as profundas necessidades humanas, situadas além da consciência e da razão, por isto atingindo a emoção e criando uma realidade virtual. Brota de emoções profundamente humanas, mas não é em si emoção; é expressão dela, é a imagem (expressão simbólica) da emoção.

Funciona ou atua na vida social como um veículo a fixar modelos de realidade ou de atuação humana, por isto tem finalidade prática, visa uma atividade de objetivação, uma função objetiva. Esta se realiza no nível dos sentimentos, o que permite a construção de um “ethos”, de um modo de ser comunitário e, via de conseqüência, de um modelo de conduta política. O mito forma um modelo de sociedade.

A filosofia surge justamente para questionar o modelo de sociedade mítico. Por isto realiza-se a filosofia mediante atividade crítica constante e profunda, por meio da especulação de todos os pressupostos. Se os pressupostos residem na tradição da sociedade ou da comunidade, é esta que tem de ser questionada. Como se faz tal questionamento? Pelo Logos. Ou seja, pelo discurso, não mais o discurso velado, residente nas esferas emocionais, mas o discurso a ser colhido e recolhido (leguein=colher) pelo esforço de um princípio racional unificador da própria trama comunitária, que é o próprio Logos.

O Logos é objeto e instrumento. Nele está inserido, por ele se recolhe e dele nasce o conhecimento. Tudo está imerso no Logos. O modo de se relacionar com o Logos é que vai construir o modelo filosófico de cada pensador, cuja missão principal é a constante busca de toda sabedoria nele inserida e presente.

Esta é a intenção do saber filosófico. Por isto ele pode ser ciência e um modo de vida. Ciência, na medida em que busca verdades justificadas a partir de crenças que são questionadas em si mesmas, a partir de si mesmas e em todos os aspectos referentes a elas mesmas. E é um modo de condução de vida posto que, simultaneamente, se faz de modo especulativo e prático, pratica-se ao especular e especula-se ao praticar; fornece respostas abstratas para a vida concreta e, assim, permite uma vivência abstrata em pensamentos concretos e sempre, sempre em comunhão com o outro.

(1) MARIÁS, Julián. História da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 03.
(2) Ver como orientação MOSER, Paul K.; TROUT, J.D.; MULDER, Dwayne H. A teoria do conhecimento: uma introduçao temática. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

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