quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Parmênides e Heráclito: os pensadores originários




A contribuição de Parmênides e Heráclito, pensadores pré-socráticos e "originários", é fundamental para o estabelecimento de uma filosofia como modo racional de questionar dentro da história do pensamento no Ocidente

(artigo publicado na Revista Conhecimento Prático Filosofia, Editora Escala, nº 27, Nov-Dez/2010, pg. 56)




Ruínas de Eléia, sul da Itália (cidade natal de Parmênides)
















Teatro em Éfeso, hoje na Turquia (cidade natal de Heráclito)









Mapa da Grécia Antiga que mostra, dentre outras, as cidades de Eléia e Éfeso







Considerada como modo de questionar-se, a Filosofia sempre existiu, por ser particularidade humana a necessidade de encontrar uma razão de ser do mundo e a busca incessante dos fundamentos de sua existência. Contudo, em sentido estrito, a Filosofia vista como um modo racional de questionamento é fruto da cultura grega.

Enumerar os fatores de contribuição exigiria um esforço que não tem lugar aqui, contudo, não se pode deixar de mencionar a forma religiosa adotada pelo mundo helênico, a qual com sua estrutura mitológica, embora condicionasse o etos do homem grego, ao mesmo tempo, permitia-lhe uma postura de independência perante o mundo, principalmente porque os deuses gregos não tinham uma aura sobrenatural, mas ao contrário, possuíam características humanas amplamente desenvolvidas, condicionados a serem deuses por uma ordem puramente natural. Os deuses derivam de um fundamento natural como todos os demais seres organicamente. Não há um plano sobrenatural como para os hebraicos, muçulmanos ou egípcios, para os quais há a necessidade de haver um escolhido (ungido) como canal de comunicação entre o Deus ou deuses e o homem. Para os gregos, há uma ordem natural das coisas que produz inclusive os deuses. Pesquisar a origem dessa ordem e seu elemento constitutivo dá início à Filosofia como hoje a conhecemos.

A pergunta filosófica surge ao longo de um itinerário e a atividade racional do homem vai se firmando com uma intensidade crescente, até alcançar seu momento de maturidade, num período contado entre os fins do séc. VII e início do séc. V a.C., com um conjunto de pensadores denominados de Pré-socráticos, porque vieram antes de Sócrates, os quais inauguram o surgimento da Filosofia ocidental.

Pensar o ser: a força do pensamento originário
Parmênides e Heráclito são sem dúvida os mais importantes pensadores do período pré-socrático, uma vez que a partir deles se estabelece um modo de reflexão, considerado como originário. Surge o questionamento acerca da verdade (alethéia) e sua apropriação pela razão (logos) e estas se tornam centrais para investigação sobre o ser (tó on). Com Parmênides e Heráclito nasce a pesquisa do ser.

Segundo Martin Heidegger (Parmênides. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 14 e 21), pensador originário, também denominado primordial ou primitivo, não é aquele simples e cronologicamente antigo, mas aquele que estabelece a origem, que marca o início ou o princípio o qual funda um lugar para a verdade, formando uma referência para a humanidade histórica, vista não como tempo calculado em dias e anos, mas como época. Princípio é o digno de ser pensado, precedendo por isto e determinando toda a história do próprio pensamento. É o fundamento de tudo, fazendo-se sempre novo a cada olhar e de modo novo como um presente para uma época, estando assim, ao mesmo tempo oculto e aberto, vindo simultaneamente em primeiro e por último. A cada nova análise, em cada posterior observação, o pensamento é renovado e se apresenta como primordial e como último, opondo-se a um modelo reducionista e limitador.

O saber usual, caracterizado pelo pensar científico, preocupa-se como o estar informado sobre determinado tema e suas relações factuais, produzindo uma espécie de dominação sobre a coisa pensada, ultrapassando-a em si mesma e buscando sua utilidade, apropriando-se dela. Inteiramente diferente é o saber essencial dos pensadores originários que voltam o pensar para o ente ou a coisa em seu fundamento mais íntimo, não importando o domínio sobre o que lhe é dado saber, mas sendo tocado por este. O saber essencial é o cuidado, é o retroceder diante do ser sem qualquer produção de objetividade exigida pela ciência moderna. Os pensadores originários pensam o ser, seu pensar é o retraimento diante do ser, que é o princípio: o ser é a origem do pensar.

Nem todo pensador é originário, mesmo os antigos, porque não pensaram o princípio e não se preocuparam com ele. Não foram colhidos por ele, para dentro dele e reunidos a partir dele. Resgatar o pensamento originário é importante porque a herança da história filosófica, principalmente pelas requisições da ciência moderna, não trouxe seu questionamento original, perdeu a pesquisa pelo ser.

Para resgatá-la, deve-se voltar aos textos e buscar sua interpretação, a qual também não pode ceder aos ditames da mesma ciência moderna, transformada em método de apropriação, dominação e objetivação. Interpretar exige tradução. Traduzir normalmente é entendido como a transposição de uma língua para outra, contudo, o falar e o dizer já são em si traduzir e isto é feito constantemente no dia-a-dia da própria língua materna, quando se busca a palavra genuína. Traduzir é a condução de um lugar a outro, mas sempre dentro do ambiente da linguagem. O tradutor conduz o leitor para o âmbito da verdade dado pela palavra transformada. Em cada diálogo sempre vige um traduzir originário e ele é mais difícil na língua materna, quando se busca a palavra mais própria, para expressar-se o sentido de cada universo individual. O pensador originário faz exatamente isto no decorrer de sua investigação sobre o ser e com seu trabalho consegue desvelá-lo de modo adequado à sua compreensão.

Parmênides




Natural da cidade de Eléia (Itália) foi o fundador da escola eleata e um dos grandes inovadores de seu tempo pela originalidade de seu pensamento. Viveu entre o fim do séc. VI e a metade do séc. V a.C., tendo atuado como político e legislador. Escreveu importante poema, denominado “Sobre a Natureza”, do qual nos chegaram alguns fragmentos, os quais, para finalidade de estudos, foram coletados e numerados. A obra divide-se em três partes, uma introdução, a segunda denominada via da verdade e a terceira, via da opinião.

Parmênides é o primeiro a estabelecer o início da questão filosófica: a pergunta sobre o ser. Com isto se inicia a ontologia (estudo sobre o ser – tó onta) e a metafísica, porque fundamento de tudo não é mais a natureza, mas o ser das coisas. Também é ele que estabelece o percurso (via da verdade) para o ser, que é dado pelo pensamento (nous), numa estreita unidade com o ser.

A preocupação maior de Parmênides era estabelecer a relação entre pensamento e ser pensado, como demonstra o texto do fragmento 3: pois é a mesma coisa o que é pensado e o que é . Ou ainda, numa outra tradução: pois são o mesmo o pensar e o ser pensado.

Por esta expressão, o que está em jogo é a relação entre aquilo que se pensa e aquilo com que se defronta e torna-se preocupação do pensamento. Ao se pensar numa determinada coisa, o pensamento desta e o próprio pensamento em si unificam-se naquilo que é pensado, tornando-se o ser daquela coisa.

O que é alcançado pela força do pensamento, tornando-se “objeto pensado” é o ser, assim, ser e pensamento dele são os mesmos, não havendo necessidade de movimento, posto ter se atingido seu âmago. Ao se alcançar o ser de algo, todo movimento se interrompe pois seu mais profundo sentido foi alcançado.

Como consequência, somente aquilo que se pode pensar é ser, pois não se pode pensar aquilo que não é de algum modo. Logo o ser é, o ser pode realizar-se como dimensão do pensamento e o não-ser não é, não se pode realizar de modo algum. Por isto, o fragmento 6 informa a impossibilidade de se afirmar pensamento do que não é.

Só há dois caminhos então para o pensamento, do que decorrem importantes inferências lógicas, que serão embriões de tais estudos, expressas sob a forma de três princípios:

Princípio da Identidade. Há uma identidade entre ser e pensamento, dada pelo ser pensado, que faz dos primeiros o mesmo, iguais entre si. Assim, todo pensar é ser e é. O não-ser não é pensado e não é. O ser é igual a ser; o não-ser é igual a não-ser. Desta forma, o ser é imediato e presente sempre para o pensamento, mesmo que esteja longe ou perto dos sentidos.
Principio da não-contradição. Se o ser é e o não-ser não é, não pode escolher-se um no lugar do outro. Ou é ou não é, porque o ser só pode ser, enquanto o não-ser só pode não ser. O ser não pode ser e não ser ao mesmo tempo. Só há uma possibilidade para o ser, a única, vale dizer, ser. Este princípio é absoluto em Parmênides e dele deriva toda sua lógica e toda sua ontologia. Há uma unidade radical no ser, a qual impede que ele seja qualquer outra coisa ou mesmo tenha movimento.
Princípio do terceiro excluído. Entre ser e não-ser inexiste qualquer outra coisa, não há qualquer outra opção, inexiste qualquer outra possibilidade ou qualquer outro terceiro elemento. Entre ser e não-ser nenhuma outra relação é possível para o alcance do pensamento. Todo pensado é de algum modo. O não-pensado não é de modo nenhum. Logo, entre ser pensado (pensamento) e o não-ser pensado (não pensamento) nenhuma possibilidade, opção ou alternativa ocorre.

Diante de tais princípios, o logos parmenideano acaba por fundir a ontologia com a lógica, semeando as primeiras lições desta, obrigando a filosofia subseqüente a um esforço gigantesco e fecundo de buscar responder à base de sua pergunta sobre o ser.

Heráclito




Caracteriza-se também como um dos mais importantes filósofos pré-socráticos pela profundidade de suas posições e dificuldade de sua compreensão, que lhe valeu título de “o Obscuro”. Deve ter sido contemporâneo de Parmênides, tendo vivido no séc. V a.C., mas alguns autores o colocam como sucessor deste, embora seja natural de localidade diversa, uma cidade denominada Éfeso (Ásia Menor). Viveu vida solitária e reclusa, afastando-se da política, embora a esta atividade tenha sido convidado.

Percebendo a questão nunca sistematizada pelos milesianos da ausência do movimento ou dinamismo, passou-se a ocupar dela em toda sua extensão e implicações, assumindo posições decididamente mais avançadas e em grande parte novas. Escreveu um livro também denominado “Sobre a Natureza”, de estilo bastante denso e peculiar, provavelmente apresentado em aforismos, destinado realmente àqueles que tivessem efetivo interesse em compreendê-lo. Do livro nos chegaram apenas fragmentos, da mesma forma, compilados e numerados.

Em primeiro lugar, chamou a atenção para a constante mobilidade de todas as coisas: nada permanece imóvel e nada permanece em estado de fixidez e estabilidade; tudo se move, tudo muda, tudo se transforma, sem cessar e sem exceção. Para exprimir esta idéia, o filósofo usa da imagem do fluir de um rio, como no fragmento 12: Aos que entram no mesmo rio, outras e outras águas fluem . A mesma idéia é expressa pelos fragmentos 49a e 91. A compreensão é que o rio é aparentemente o mesmo, mas na realidade compõe-se de águas sempre renovadas, que se somam e se dispersam, não sendo possível mergulhar nele duas vezes porque pela segunda vez já é outra água que se encontra. O próprio mergulhador também muda e não é o mesmo nas duas oportunidades. Portanto, nada permanece, há um constante devir que a tudo altera. Daí decorre o aspecto mais célebre da doutrina do filósofo, na fórmula “tudo flui” (panta rei), mas que não a esgota, pois o fluxo universal das coisas é apenas o ponto de partida de uma inferência muito mais profunda.

O devir de Heráclito é estabelecido pelo conflito ou pela contradição (polemós), num constante movimento de opostos, numa perene oposição e luta de um contra o outro e é esta oposição perene que dá realidade às coisas, assim o combate é de todas as coisas pai, de todas rei – fragmento 53. Porém, o próprio conflito permite equilíbrio e se revela como harmonia pela síntese de contrários, pois a oposição se concilia e das coisas diferentes nasce a harmonia mais bela, sendo que nesta os opostos coincidem. Assim, todas as coisas voltam a uma unidade original da qual derivaram.

Portanto, se o devir é constante pela oposição que se pacifica em superior harmonia, então fica claro residir na síntese de opostos o princípio que explica toda realidade e esta síntese é a morada do divino. O movimento enquanto physis é representado como elemento primordial pelo fogo, conforme expressa o fragmento 90: o fogo se transforma em todas as coisas e todas as coisas se transformam em fogo, assim como se trocam as mercadorias por ouro e ouro por mercadorias.

A idéia de fogo traduz o paradigma da constante mutação, pois o fogo consome aquilo que lhe dá combustão, mas ao mesmo tempo, mantém-se como fogo a crepitar, escondendo seu combustível e produto (fumaça, cinzas, carvão), sendo visível apenas pela sua chama, permanentemente acesa em movimento. Aqui a noção de movimento une-se à de aparecimento da natureza (physis), a qual, como diz o fragmento 123, gosta de ocultar-se. A physis oculta sua natureza, ou seja, o ser, que só é percebido no “desocultamento”, no desvelamento, na revelação do ser, que é a alethéia.

Somente o sábio (sophon) retira o véu da physis e desvela o ser. Para fazê-lo, deve escutar o logos e perceber a unidade do ser, conforme orienta o fragmento 50: não a mim, mas o logos escutado sabiamente, homologa: é uno todo ser . A idéia principal de Heráclito destaca a necessidade de se ouvir ao logos e de se recolher conjuntamente e reconhecer com todos (homologuéin), homologar publicamente que o ser é unidade. Este é o caminho do sábio, aquele que revela a verdade do ser, desvelando-o (alethéia).

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