sábado, 29 de outubro de 2011

DIÁLOGOS FORENSES


Diálogos forenses



Autor: João Ibaixe Jr.


Editora: Dobra Editorial



Inspirado no gênero do miniconto, o autor utiliza com fina ironia a experiência que tem como profissional no meio jurídico para revelar o lado kafkiano que se oculta no universo das leis.


Para mais informações, fale com a editora aqui















segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Última Instância - Diálogos forenses, de João Ibaixe Jr.


Os minicontos de João Ibaixe Jr. proporcionam um desnorteante passeio pela wonderland do Poder Judiciário e o seu leitor será apresentado às teias em que se enredam advogados, juízes e promotores enquanto lidam com... vidas.


Soterrada sob o famigerado discurso dos profissionais do Direito e cercada por comportamentos – trajes, feições, tratamentos – que só se encontram no fórum, a ideia de uma sociedade administrada por leis e autoridades perfeitas se converte em sua própria e terrível caricatura, flagrada com precisão e ironia em Diálogos forenses.

(Tarso de Melo)


Dúvida existencial do pequeno filósofo


Miniconto inspirado no novo livro de Gabriel Chalita




- Mestre, qual o segredo da vida?


- Ganhar 100 mil por mês!



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domingo, 8 de maio de 2011

Heidegger e a hermenêutica do Dasein

Artigo publicado na revista
Conhecimento Prático: Filosofia nº 29











Este ano completam-se trinta e cinco anos da morte do filósofo alemão Martin Heidegger. Nascido em Messkirch aos 26 de setembro de 1889 e falecido aos 26 de maio de 1976 em Freiburg, ele é um dos principais filósofos do século XX, a par de ser um dos teóricos mais complexos e uma personalidade das mais controvertidas. Sua obra principal é “Ser e Tempo”, publicado em 1927.

Heidegger é alguém cujo pensamento não pode ser separado de sua própria existência, pois a leitura de sua biografia em paralelo à sua filosofia acaba por se complementar e formar uma rede teórica que, uma vez entendida em seus pontos principais, desenha uma totalidade que pode funcionar como fundamento para compreensão e crítica do século XX e deste início do século XXI. Vale dizer, o pensamento heideggeriano pode funcionar como uma chave de compreensão de toda nossa vivência nesse momento fluído e indefinido, para o qual os autores não conseguem alcançar um consenso, modernidade ou pós-modernidade.

O pensamento heideggeriano permeia não só a filosofia, como a psicologia, as ciências sociais e até mesmo o direito, incluindo alguns estudos sobre ciência da religião. Obviamente, seus críticos são muitos e isto também acresce interesse à sua obra, pois a discussão sempre aprofunda os pontos de debate.

Para uma apresentação de seu pensamento, o livro “Ser e Tempo” deve ser utilizado como fio condutor. Nele, Heidegger traz o que se pode chamar de Hermenêutica do Dasein, porque o autor evoca esta perspectiva para demonstrar a possibilidade de se entender o ser humano.

Como obra, “Ser e Tempo” é um livro que se compõe da análise de um fenômeno e de duas estruturas que constituem tal fenômeno. Dasein é o fenômeno e as duas estruturas são a historicidade e o cuidado. O livro é a conceituação e explicação dessa dinâmica assim constituída.

Dasein (pronuncia-se dá-zain) é uma palavra, da forma como utilizada por Heidegger, propriamente intraduzível em português, mas alguns autores fazem uma tentativa, normalmente, usando a expressão “ser aí”. Aqui a questão se refere mais ao ofício do tradutor-filósofo do que propriamente ao conceito. Alguns consideram um fracasso não traduzir o termo e outros entendem que efetuar a tradução é perder a força de seu vigor semântico, pois, uma vez mantida no alemão, a palavra obriga o leitor a um exercício de reflexão diferenciado, o objetivo de Heidegger. Nós preferimos manter a expressão no original por este motivo. Outros termos que podem ser encontrados são “existir”, “realidade humana”, “ser-lá”, “ser-no-mundo”. No texto brasileiro, a tradução é “presença”, mas esta escolha é muito criticada, pois ela remete a uma dinâmica etimológica não pretendida pelo autor e rejeitada por ele. Se a opção for pela tradução, o melhor termo é “ser-aí” (sein=ser e da=aí).

Vilém Flusser, em seu livro “Língua e realidade”, diz que a melhor tradução para Dasein é “estar aí”, pois em alemão não existe o verbo “estar”, como existe em português. Sein faz os dois papéis: “ser” e “estar”. Esta é a primeira chave para a compreensão do ser humano como Dasein: humano é algo que é ou está em algum lugar, aí. Este pequenino advérbio faz toda diferença e se verá porquê.

Na língua alemã, quase toda substancialidade conceitual pode ser feita por aglutinação. A língua portuguesa, por sua índole, já tende a substancializar os conceitos, dando a eles essência, por assim dizer, quase natural. O verbo “estar” normalmente “dessubstancializa” ações e conceitos, retirando sua carga essencialista, que a tradição filosófica do ocidente tende a manter. Assim, neste sentido, o “estar aí” representa melhor o significado de Dasein.

A professora Dulce Critelli, no seu livro “Analítica do sentido”, vai dizer que se pode entender o Dasein como sendo sinônimo de homem. Só que, ao longo do livro ela vai mostrando como o conceito se distancia desta idéia comum que se tem de ser humano. O Dasein, na verdade, é o homem na condição ontológica primordial, ou, mais ainda, na sua condição pré-ontológica. Dasein é uma forma de se compreender o ser humano, distinta de toda metafísica ocidental, principalmente do Iluminismo, o qual acabou por definir o homem como animal racional e a razão como sua essência.

Segundo Foucault, a figura do homem como sujeito nasce com o racionalismo, porque antes não se tinha esta preocupação, se bem que, no medievo, o homem era definido como ser dotado de alma e com capacidade de conhecer a verdade, o que significava conhecer Deus, um percurso único. Havia uma concepção de natureza humana definida pela alma, derivada do divino. Da mesma forma, na Grécia Antiga não havia essa preocupação de definir o que é o homem porque importava a ação humana diante do ambiente político. Já se tinha uma condição humana, não havia necessidade de se perguntar o que é o homem, mas, o que faz o homem. Havia a investigação pela racionalidade, mas ela não colocava unicamente a razão como ponto fundamental da constituição do humano.

No Iluminismo a natureza humana é definida pela razão. Toda essência humana é racional. Com Kant essa razão vai ser a síntese da percepção e isto é um passo além de Descartes. Para Descartes, o ser humano é uma coisa que pensa, mas o homem não é só uma coisa que pensa, segundo Kant, pois é um ser que tem a capacidade de perceber antes mesmo de pensar, ou seja, tem a capacidade, por meio da razão, de perceber o seu próprio pensar. Com Descartes e Kant, nasce a figura da subjetividade e do sujeito, respectivamente, as quais não existiam antes na filosofia.

Para Heidegger, a linha advinda dessa metafísica ocidental bateria numa única questão: a razão humana estaria diretamente ligada à idéia de ciência. Tudo que é humano é relacionado a conhecimento científico e toda ação humana é feita para adquirir ou produzir ciência, no sentido desse conhecimento. Esse conhecimento, por ser fruto da razão, como essência do humano, produziria ciência e tecnologia, ou seja, sob a finalidade de se construir uma vida melhor para o homem, o conhecimento deveria agregar tecnologia à ciência. E a razão passa a ser meramente instrumental. O homem é senhor de sua razão, que serve de instrumento para construir sua felicidade, por meio de conhecimento, cujo objetivo é transformar-se em ciência tecnológica.

Esse modelo de racionalidade nasce num espaço que Heidegger chama de Ocidente. Ocidente não é um lugar específico, não é a Europa, não é o norte da Ásia ou um pedaço da África ou da América do Sul. O ocidente é um espaço, onde foi construída a racionalidade, onde a racionalidade funciona como fundamento da definição da subjetividade.

Descobrir esse espaço é ao mesmo tempo descobrir seu percurso, porque esse foi um percurso problemático, pois não trouxe boas soluções. Apesar da racionalidade ser fundamento da construção do real e ter o sujeito como ator da realidade, os reflexos da realidade não são tão bons quanto se projetava que seriam. Apesar do desenvolvimento da ciência, apesar do esclarecimento, apesar da luz que foi jogada na razão e pela razão, o ser humano ficou incompleto.

Apesar do grande desenvolvimento tecnológico, do grande desenvolvimento de todas as ciências, duas Grandes Guerras envolveram todo o mundo conhecido. E isso já foi um golpe contra a idéia de racionalidade. Por quê? Porque se a razão permite conhecimento e esse conhecimento permite desenvolvimento que só faz o melhor para o homem, a tendência seria que a vida política, que é o laço das relações entre os homens, fosse o mais perfeito possível. Mas não foi. E as duas guerras mostraram isso.

Heidegger vai buscar uma resposta. Mas ele opta por uma critica profunda e radical. Essa crítica, ele a chama de “destruição”. Destruição não é o rompimento absoluto com todo o passado, mas a implosão das tradições por dentro, preservando as bases nas quais elas foram construídas. Destruição heideggeriana não é explosão do velho para simples instauração do novo; é uma retomada do antigo e uma releitura desse antigo para se verificar os erros que culminaram na modernidade iluminista.

Heidegger identifica um problema e tenta um recomeço. Mas como se realiza esse recomeço? Em termos históricos, não se muda o passado, não há volta ao passado, mas há a possibilidade de releitura desse passado, visando aplicar isso ao presente para alcançar o futuro. Esse é o projeto de Heidegger: destruir o passado e remontá-lo até conseguir, no aspecto positivo, uma projeção positiva de futuro. Há uma reconstrução constante.

Já se escapa, assim, do plano metafísico, pois não há ideal essencialista, não há um absoluto, como em Hegel, que se projeta, não há formas perfeitas, não há essência. Tem-se uma reconstrução histórica de algo que já foi feito. História é evento, não se muda. Logo, essa reconstrução histórica é uma releitura, portanto, uma reinterpretação. Eis o primeiro ponto da hermenêutica na metodologia heideggeriana.

Heidegger propõe a destruição por meio de uma releitura, uma desconstrução por outro mecanismo de interpretação. Um retorno ao momento em que se instaura o pensamento que vai produzir a racionalidade. Que momento é esse? A Antiguidade. Heidegger volta os olhos ao pensamento da antiguidade e tenta verificar onde nasceu a raiz que poderia gerar essa racionalidade. E, ao refazer o percurso de volta, encontra a raiz de tudo na ideia de logos. Heidegger vai mostrar que a razão ocidental, noção hoje transformada em razão instrumental, é a incorreta compreensão da expressão logos. Logos não é razão. A tradução original do grego significa discurso.

Discurso: mais uma vez hermenêutica agora aliada à questão da linguagem. Com efeito, ao falar de discurso, fala-se em troca de comunicação. Ora, se ao se falar de uma tradição de pensadores com os quais não se conviveu, a comunicação ocorre por meio de leitura. Ao falar leitura, fala-se necessariamente em interpretação. Ao se falar em discurso, fala-se assim em interpretação. No momento em que existe o discurso existe interpretação. Se existe uma interpretação constante porque existe um discurso constante, tem que haver um ser que consiga realizar todo tempo essa interpretação. Esse ser é o ser humano.

Mas ele faz isso por ser racional, com o uso do mecanismo da razão? Pode-se entender que o ser humano, definido como ser racional, é quem trabalha com discursos? Heidegger dirá não. A racionalidade não trabalha com discurso, mas com construção lógica de unidades de percepção de pensamento, as quais compõem a ciência. Para Heidegger, isto é inválido.

O que está errado é a compreensão do ser humano como ser racional. Desta forma, a pergunta passa a ser: o que é o ser humano? Mas, seria esta a pergunta certa? Adianta perguntar o que é o ser humano como essência? Se a pergunta for colocada desta forma, chegar-se-á ao caminho de Descartes. A pergunta tem de ser outra.

Heidegger lembra que ao se fazer uma pergunta tem-se certa noção da resposta. Só se pode perguntar sobre aquilo do que se tem alguma noção. Essa capacidade de ter noção sobre as coisas, de poder fazer perguntas, é a capacidade fundamental do ser humano. O ser humano é o ser que indaga e, ao indagar, busca respostas. Logo, ser humano é o ser que compreende o que pode indagar e compreende as respostas que tem de buscar.

O fundamento do ser humano está ligado à idéia de compreensão e não a de razão. O ser humano é aquele ser dotado de possibilidade de compreensão e não de pensamento. Pensamento é veículo da compreensão. Mas o ser humano compreende por estar em um lugar, em um tempo, num determinado lugar e num determinado tempo. Ser humano é o ser que é, num lugar e num tempo, é o ser que é “aí”, num lugar e tempo. É o Dasein.

Porém, o ser do humano não é possuir uma razão, antes, é ser enquanto está num espaço e tempo, questionando sobre seu lugar e seu momento. Questionando e respondendo, o ser humano compreende a si, enquanto habita um espaço, durante um tempo. Dasein, o ser que está aí, mergulhado na compreensão de si e do todo que o cerca. Não é a coisa que pensa, não é o animal racional, mas o ser que vive e compreende: o ser vivente no discurso, o ser vivente na hermenêutica, em sua própria hermenêutica, aquela do Dasein.

Dasein habita um mundo, aquele que sintetiza sua compreensão de seu espaço-tempo, coabitado por outros. Logo, o Dasein não é individualista, seu logos não é a razão instrumental, mas a possibilidade de compreensão de tudo que o cerca a partir de seu ser, com seu ser e de volta a seu ser, nunca de forma individualista. O Dasein é comunitário, pois convive num espaço-tempo com outros e com uma tradição herdada, decorrente de todo espaço-tempo da humanidade. Eis a historicidade. Não é um ponto cronológico, nem uma síntese da unidade da razão, mas o resultado de complexo processo humano, de toda humanidade, que faz o Dasein ser o que é e construir-se enquanto é, agindo como célula de construção e reconstrução constante da própria humanidade.

Para mergulhar nesse processo, o Dasein precisa liberar-se do véu da realidade, ou seja, do plano ôntico que habita e que lhe apresenta todos os fenômenos, dirigindo-se ao plano ontológico do ser de todas as coisas, vistas não mais como portadoras de essências, mas como sínteses de processos de compreensão. A partir da realidade, o Dasein busca o ser das coisas, não mais suas essências, porém, a adequada maneira de compreendê-las, a partir da tradição em que se encontra e utilizando os meios de que no momento e na atualidade dispõe. O Dasein busca no plano do discurso (plano ontológico) a compreensão (hermenêutica) do ser das coisas que estão no mundo e para ele se fazem aparecer como fenômenos (plano ôntico).

Essa busca somente se oferece ao Dasein se ele se propõe a isso. Aqui entra a estrutura do cuidado. Cuidado é a situação do Dasein, na qual ele direciona a si mesmo para buscar o ser de si e de todas as coisas que se lhe colocam como fenômenos.

Apenas no plano do discurso isto é possível, porque toda perspectiva ôntica, que apresenta o ente (as coisas, sejam objetos físicos ou intelectivos) são traduzidos por meio de interpretação para o plano do Dasein, o qual é unicamente ontológico, pois ocorre na e mediante compreensão.

Assim, Heidegger propõe a hermenêutica do Dasein, uma alternativa para se conceituar o ser humano, não mais como sujeito, não mais como senhor da razão, mas como um ser que habita, dentre outros, um mundo, o qual para sobreviver e existir exige sempre o cuidado.

Dante Alighieri - Divina Comédia - Paraíso - Canto XI

Canto XI por Salvador Dali
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Divina Comédia

Paraíso

Canto XI
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1. Ó insensato cuidado dos mortais,

quão são os defectivos silogismos

3. os que os fazem baixo bater as asas!



Quem sob a iura e quem por aforismos*

guiado, e quem seguindo o sacerdócio,

6. e quem a reinar por força ou por sofismas,



e quem por roubar e quem por civil negócio,

quem no deleite da carne envolto

9. se afadigava e quem se dava ao ócio,



quando, de todas estas coisas solto,

com Beatriz me era para cima no céu*

12. assim gloriosamente acolhido.



Depois que cada um retornara ao

ponto do círculo em que antes era,

15. firmaram-se , como candelabro candente*



E eu ouvi lá dentro aquele luminar

que me havia primeiro falado , a sorrir*

18. iniciar, fazendo-se mais radiante:



“Assim como eu de seu raio resplendo,

também, resguardando na luz eterna,

21. a causa de teus pensamentos apreendo.



Tu duvidas e desejas investigar

em mais viva e extensa linguagem

24. meu dizer, que a seu escutar se externe,



quando antes disse: ‘O bem se nutre’ ,*

e onde disse: ‘Não nasce em segundo’;

27. aqui faz mister que se distinga .



A providência, que governa o mundo

com aquela reflexão pela qual toda aparência

30. criada é vencida antes de se ir ao fundo ,*



para melhor encaminhar a seu deleite

a esposa de quem a altos brados

33. desposou com seu sangue bendito*



em si segura e a ele mais fiel,

dois príncipes ordenou a seu favor*

36. que daqui e dali lhe fossem guia



Um foi todo seráfico em ardor;

o outro por sapiência em terra foi

39. de luz querubínea um esplendor .*



De um direi, pois que de ambos

se diz de um orando, a qualquer deles,

42. porque a único fim sua obra vem.



Entre Tupino e a água que descende

da colina eleita pelo beato Ubaldo,

45. fértil encosta do alto monte pende,



onde Perugia recebe frio e calor*

da Porta do Sol; e por detrás lhe plange

48. por grave jugo Nocera com Gualdo.



Dessa encosta, donde mais frange

sua rispidez, nasceu ao mundo um sol,

51. como este o faz às vezes no Gange*



Porém quem desse lugar fizer palavra,

não diga Assis, pois dirá pouco,

54. mas Oriente , se pretender falar próprio.*



Não era mesmo muito distante d’orto

quando começou a fazer sentir a terra

57. de sua grande virtude algum conforto



que por tal dama, jovenzinho, em guerra

contra o pai incorre, à qual, como à morte,

60. a porta do prazer ninguém descerra;



e perante sua espiritual corte

et coram patre se lhe fez unido;*

63. depois de dia em dia a amou mais forte.



Esta, privada do primeiro marido ,*

mil e cem anos, desprezada e esquecida

66. até ele permaneceu sem convite;



nem valeu ouvir que a encontrou segura

com Amiclate , ao som da sua voz*

69. desse que a todo mundo fez medo;



pouco valeu ser constante e feroz,

que, onde Maria permaneceu abaixo,

72. ela com Cristo sobre a cruz chorou.



Mas para que eu não proceda mui escuso,

Francisco e Pobreza, por estes amantes

75. tenha agora em meu falar difuso.



Sua concórdia e seus ledos semblantes,

amor e maravilha e doce resguardo

78. faziam ser causa de pensamentos santos;



tanto que o venerável Bernardo*

descalçando-se primeiro e atrás de tanta paz

81. correu e, correndo, lhe pareceu ser tarde.



Ó ignota riqueza! ó bem feraz!

Descalçado Egídio e descalçado Silvestre*

84. seguiram o esposo, assim à esposa apraz.



Depois se vai aquele pai e mestre

com sua dama e com aquela família

87. que já se unia pelo humilde cordel



Não lhe pesou de vileza de coração o olhar

por ser filho de Pietro Bernardone*

90. nem por parecer despeito a maravilha



mas regiamente sua firme intenção

a Inocêncio abriu, e dele obteve*

93. primeiro selo a sua religião.



Pois o povo mendicante cresceu

atrás dele, cuja vida admirável

96. melhor em glória do céu cantaria



de segunda coroa resgatado

foi para Honório pelo Espírito Santo*

99. na santa ânsia deste arquimandrita .*



E eis que, pela sede de martírio

na presença soberba do Sultão*

102. pregou Cristo e outros que o seguiram



e por encontrar a conversão acerba

junto à gente e para não ficar em vão,

105. regressa ao fruto da itálica erva.



na crua pedra entre Tevero e Arno

de Cristo toma o último selo*

108. que dois anos seus membros portarão.



Quando a ele que tanto bem distribuiu

aprouve de trazê-lo elevado à sua mercê

111. pelo mérito de seu ser humilde



a seus irmãos, como seus justos herdeiros,

recomendou a dama a si tão cara

114. e encomendou amarem-na com fé;



e de seu ventre a alma preclara

mover-se desejou, voltando a seu reino

117. e a seu corpo não desejou qualquer mortalha.



Pensa agora quem dele foi digno

colega em manter a barca

120. de Pedro em mar alto pelo reto sinal ;*



e esse foi nosso patriarca;

pois quem o seguir como ele manda

123. discernirá quão boas mercês arca



Mas seu tesouro de nova vianda

se fez ganancioso, assim não pode ser

126. que por diversos saltos não se perca;*



e quanto seu rebanho afaste

e vagabunde, mais para esse vácuo,

129. no retorno ao ovil há menos leite



Bem são aquelas que temem dano

e mantêm-se ao pastor; mas são tão poucas,

132. que a capa fornecida tem pouco pano.



Ora, se minhas palavras não são roucas

se tua audiência há sido atenta

135. se o que é dito à mente revolve



em parte tens tua vontade satisfeita ,*

porque verás a planta onde se machuca*

e verás o corrigir que argumenta:



139. ‘O bem se nutre, se não se devaneia’.” *

 
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Notas (pelo número do verso)
 
4. Originalmente em latim, significando “direito”, no sentido de conjunto de regras que fornecem legitimidade sociopolítica para contrapor à expressão seguinte “aforismos”, como conjunto de regras morais. Logo, aqueles que se valem do direito e da moral vigentes como escudo de suas condutas.
 
11. No original suso, italiano arcaico, usado originariamente por D., derivado do latim “susu”, “sursum”, com significado para cima, elevar. D. transmite a ideia de que, livre das prisões terrenas, dos freios terrestres, ele, acompanhado de Beatriz, era elevado e sustentado no céu pela força dessa liberdade, num movimento dinâmico, continuado.
 
15. Em italiano fermossi, arcaísmo, para fermo, significando algo que permanece firme, imóvel, inalterado, fornecendo a ideia de firmamento; o círculo era tão firme como uma única peça. A figura do candelabro a seguir indica a força da luz proveniente de tal círculo: candelabro (peça única) incandescente.
 
17. Santo Tomás de Aquino conversava com D. no canto anterior
 
25. U’ bem s’ impingua: no italiano a expressão é mais árdua, ao mesmo tempo que mais poética, pois literalmente significa “ o bem se engorda”, no sentido de que ele pode ser alimentado com fartura.
 
27. S. Tomás percebe que D. não entendera o que fora dito nos vv. 96 e 114, respectivamente, do Canto anterior
 
30. D. usa da força da metáfora para fazer um jogo entre aparência e essência, pois a reflexão divina não necessita da primeira por já ter acesso direto à segunda. No original: “La provedenza, che governa il mondo / on quel consiglio nel quale ogne aspetto / creato è vinto pria che vada al fondo,”
 
33. A esposa refere-se à Igreja que se formou após a crucificação de Cristo.
 
35. A mesma Igreja ordenou dois príncipes (latinismo para chefes) S. Francisco e S. Domingos.
 
39. Serafins e querubins são os mais altos na hierarquia dos anjos, estando ambos próximos a Deus, contemplando, cada qual a seu modo, as dimensões da Trindade Divina e realizando sua angélica missão.
 
46. Tupino é um pequeno curso de água próximo a Assis, que se une ao rio Chiascio, o qual desce a encosta abaixo do monte Izimo, o refúgio de S. Ubaldo Baldassini. Entre os dois rios há um pendor íngreme que conduz à Perúgia.
 
51. Continua a lírica descrição do local, fazendo referência ao brilhar do sol quando este nasce na região do rio Ganges.
 
54. Ascesi: D. usa a forma antiga do italiano para o topônimo Assisi, fazendo um jogo semântico, pois no latim ascese significa ascender, subir, elevar-se, por isso Oriente. Francisco de Assis seria o Sol do Oriente.
 
62. Expressão latina, representa fórmula notarial para dizer casamento diante do pai.
 
64. Referência a Cristo, primeiro esposo da Pobreza, que com ele subiu à cruz na descrição dos versos subsequentes.
 
68. Amiclate: pescador que não se perturbou em virtude de sua pobreza e não se intimidou com a presença de Júlio Cesar em sua morada, durante a campanha de Durazzo, na guerra do último contra Pompeu.
 
79. Bernardo de Quintavalle: primeiro seguidor de S. Francisco, que era rico comerciante em Assis.
 
83. Egídio e Silvestre: também seguidores do santo; o primeiro foi autor do livro Verba Aurea e o segundo, presbítero.
 
89. Pietro Bernardone: pai de S. Francisco.
 
92. O papa Inocêncio III que inicialmente aprovou a regra franciscana, dando início à sua Ordem.
 
98. Honório III: papa que deu aprovação solene e indiscutível, ratificando a Ordem de S. Francisco.
 
99. Helenismo da linguagem eclesiástica significando pastor, padre.
 
101. Alusão ao trabalho de S. Francisco de divulgar a fé em terras do Egito e no Oriente por volta de 1219.
 
107. Referência ao episódio no qual S. Francisco apresenta no corpo as marcas do martírio de Cristo, o milagre dos estigmas.
 
120. Digno colega é S. Domingos convocado a seguir a missão de S. Francisco, fundando a Ordem dos Dominicanos, à qual pertenceu S. Tomás.
 
126. No original salti no sentido de mata cerrada, trilhas sem fim.
 
136. S. Tomás explica a primeira expressão “o bem se nutre”. A segunda dúvida será explicada no Canto XIII, vv. 46 e 47 e 89 a 108.
 
137. Refere-se à Ordem Dominicana que se afastou das orientações de seu mestre.
 
139. U’ bem s’ impingua,se non si vaneggia: conclusão sobre o modo de “engordar” o bem (v. nota 5). A idéia é que o bem engorda, se nutre, se alimenta, quando dele mesmo não se devaneia, não se divaga, i.e., o bem indica seu próprio caminho, enquanto o constói com suas próprias ferramentas. Por isto se alimenta de si mesmo, desde que não se perca sua orientação e seu fim em si mesmo. Seria simples demais entender aqui uma conclusão de ordem meramente moral, como uma parábola edificante. A par de sua riqueza lírica e linguística, no que tange à formação de imagens, trazendo pela via das palavras o vigor de matizes abundantes e diversas, o Paraíso, assim como as outras partes anteriores, aponta para a cosmovisão de D. Há um fundo filosófico de discussões que denotam a preocupação filosófico-política do florentino, que vai muito além daquela interpretação que vê na obra uma elegia à visão de mundo medieval, construída em torno da figura de Deus e da Igreja. Faz-se presente uma profunda e sutil (porque poética) crítica ao caminho qua a própria Igreja medieval percorria. Para aprofundar-se nesta questão veja GILSON, Etienne. Dante and philosophy. in: http://pt.scribd.com/doc/37349371/Dante-and-Philosophy-Gilson (acesso em 04.05.2011)
 
 
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Tradução do Paraíso Canto XI, da Divina Comédia de Dante Alighieri, sem preocupação com a métrica ou com a rima, que não caracterizam a poesia contemporãnea, mas mantendo o ritmo do poema. A linguagem tem conotação  contemporânea para o leitor moderno ter mais facilidade de compreensão. A presente tradução, realizada direta do italiano, feita pelo prazer de fazê-lo e sem compromisso acadêmico, foi incentivada pelos meus amigos Adriano, Fábio e Felipe, a quem agradeço muito o apoio. Espero que possa ajudar o leitor atual da obra de Dante de algum modo, por isso o post.

sábado, 2 de abril de 2011

Existente vivente (versão 2011)



Homem, ser

Presente

De si ausente


Homem, ente


Diferente,

Felicidade, pretendente

Aparência, contente


Homem, existente

Consumo, inerente

Solidão, ingrediente


Entre Ser e Ente

Dialética realidade:

O humano,

Pura alteridade!

sábado, 8 de janeiro de 2011

Conflitos entre ciência e religião

Comentários ao programa Liberdade de Expressão de 07 de janeiro de 2011






No programa Liberdade de Expressão de ontem, veiculado pela Radio CBN (ouça abaixo), Cony e Viviane Mosé discutiram a questão do conflito entre ciência e religião. A abordagem se inicia com uma informação: a de que o Papa Bento XVI declarou ter sido Deus o responsável pelo Big Bang, como origem do próprio universo, aceitando a teoria científica citada; todavia, ele teria complementado suas declarações, afirmando que as chamadas leis do universo não são aleatórias, mas seguem uma ordem dada pelo plano divino.

A notícia divulgada pela mídia (ver) ressalta justamente que a Igreja Católica procura despir a imagem de ser contrária à ciência, aceitando a evolução científica como projeto de Deus, mas recusando ser esta obra do acaso. Assim, as declarações papais caminham no sentido de um discurso unificador e não de confronto.

Todavia, a abordagem dos comentaristas do Liberdade de Expressão residiu na idéia de que há um conflito entre ciência e religião, lembrando que a palavra do Papa é protagonista do dogma religioso, mas não tem nenhuma força no campo da ciência. Ainda destacou-se a distinção entre o conhecimento pela fé e aquele fornecido pela razão, havendo assim dois domínios de saber. O da ciência é dado por argumentação e experiência ao passo que o religioso é construído por metáforas que expressam uma crença.

Mas será a ciência tão certa assim? Na modernidade não constituiria ela também um dogma? Alguns autores, que são cientistas afirmariam isto. Veja-se o exemplo de Ilya Prigogine e seu Fim das certezas , no qual se pode verificar como a ciência trabalha com probabilidades a partir de hipóteses que nada mais são do que crenças. Veja-se o exemplo da contagem dos planetas no Sistema Solar. Há bem pouco tempo tinham-se doze planetas; hoje, têm-se nove. O que mudou? Os planetas deixaram de existir e isto foi verificado por experimentação? Não, simplesmente mudou-se o conceito de planeta, ou seja, a argumentação foi construída a partir de outro discurso, sem qualquer relação empírica com a natureza dos planetas, apenas modificou-se o modo de ver a situação. Partiu-se de outra crença, no caso, científica.

Acreditar, em dias atuais, em domínios diversos da ciência e da religião é reproduzir um discurso iniciado no século XVIII com o racionalismo, que teve sua função sociopolítica, mas que não traz mais respostas para problemas atuais. A ciência tanto quanto a religião tem como último fundamento uma crença, que é o princípio do qual parte o pensamento humano, mantendo uma íntima e ainda inexplicável (em toda sua profundidade) relação com o sentimento. Crer, pensar e sentir estão estreitamente ligados num complexo processo do compreender humano. Tanto a própria ciência – vejam-se as recentes pesquisas neurocientíficas – quanto a filosofia apontam para isso.

A questão entre ciência e religião deve ser trabalhada em sua esfera política, pois é aqui que reside o cerne do problema: como o agir humano na sociedade do mundo moderno deve ser fundamentado uma vez que a ciência tem velocidade acentuadíssima e a religião é multifacetada pela diversidade de crenças que a constitui? E mais, deve-se lembrar que, no mencionado mundo moderno, ciência e religião são ambas institucionalizadas e, portanto, interessam e fazem parte do funcionamento do mais complexo ainda mecanismo da sociedade de mercado globalizada.

Diante disto, com todo respeito que merecem os comentaristas, uma vez que são intelectuais de peso, apontar apenas para um simples conflito entre ciência e religião não parece ser a forma mais adequada de se enfocar a profundidade de tal problemática.


Liberdade de Expressão
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Os conflitos entre ciência e religião
Cony, Xexéo & Viviane Mosé
Sexta, 07/01/2011