sábado, 8 de janeiro de 2011

Conflitos entre ciência e religião

Comentários ao programa Liberdade de Expressão de 07 de janeiro de 2011






No programa Liberdade de Expressão de ontem, veiculado pela Radio CBN (ouça abaixo), Cony e Viviane Mosé discutiram a questão do conflito entre ciência e religião. A abordagem se inicia com uma informação: a de que o Papa Bento XVI declarou ter sido Deus o responsável pelo Big Bang, como origem do próprio universo, aceitando a teoria científica citada; todavia, ele teria complementado suas declarações, afirmando que as chamadas leis do universo não são aleatórias, mas seguem uma ordem dada pelo plano divino.

A notícia divulgada pela mídia (ver) ressalta justamente que a Igreja Católica procura despir a imagem de ser contrária à ciência, aceitando a evolução científica como projeto de Deus, mas recusando ser esta obra do acaso. Assim, as declarações papais caminham no sentido de um discurso unificador e não de confronto.

Todavia, a abordagem dos comentaristas do Liberdade de Expressão residiu na idéia de que há um conflito entre ciência e religião, lembrando que a palavra do Papa é protagonista do dogma religioso, mas não tem nenhuma força no campo da ciência. Ainda destacou-se a distinção entre o conhecimento pela fé e aquele fornecido pela razão, havendo assim dois domínios de saber. O da ciência é dado por argumentação e experiência ao passo que o religioso é construído por metáforas que expressam uma crença.

Mas será a ciência tão certa assim? Na modernidade não constituiria ela também um dogma? Alguns autores, que são cientistas afirmariam isto. Veja-se o exemplo de Ilya Prigogine e seu Fim das certezas , no qual se pode verificar como a ciência trabalha com probabilidades a partir de hipóteses que nada mais são do que crenças. Veja-se o exemplo da contagem dos planetas no Sistema Solar. Há bem pouco tempo tinham-se doze planetas; hoje, têm-se nove. O que mudou? Os planetas deixaram de existir e isto foi verificado por experimentação? Não, simplesmente mudou-se o conceito de planeta, ou seja, a argumentação foi construída a partir de outro discurso, sem qualquer relação empírica com a natureza dos planetas, apenas modificou-se o modo de ver a situação. Partiu-se de outra crença, no caso, científica.

Acreditar, em dias atuais, em domínios diversos da ciência e da religião é reproduzir um discurso iniciado no século XVIII com o racionalismo, que teve sua função sociopolítica, mas que não traz mais respostas para problemas atuais. A ciência tanto quanto a religião tem como último fundamento uma crença, que é o princípio do qual parte o pensamento humano, mantendo uma íntima e ainda inexplicável (em toda sua profundidade) relação com o sentimento. Crer, pensar e sentir estão estreitamente ligados num complexo processo do compreender humano. Tanto a própria ciência – vejam-se as recentes pesquisas neurocientíficas – quanto a filosofia apontam para isso.

A questão entre ciência e religião deve ser trabalhada em sua esfera política, pois é aqui que reside o cerne do problema: como o agir humano na sociedade do mundo moderno deve ser fundamentado uma vez que a ciência tem velocidade acentuadíssima e a religião é multifacetada pela diversidade de crenças que a constitui? E mais, deve-se lembrar que, no mencionado mundo moderno, ciência e religião são ambas institucionalizadas e, portanto, interessam e fazem parte do funcionamento do mais complexo ainda mecanismo da sociedade de mercado globalizada.

Diante disto, com todo respeito que merecem os comentaristas, uma vez que são intelectuais de peso, apontar apenas para um simples conflito entre ciência e religião não parece ser a forma mais adequada de se enfocar a profundidade de tal problemática.


Liberdade de Expressão
ouça aqui
Os conflitos entre ciência e religião
Cony, Xexéo & Viviane Mosé
Sexta, 07/01/2011

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