domingo, 8 de maio de 2011

Dante Alighieri - Divina Comédia - Paraíso - Canto XI

Canto XI por Salvador Dali
 -------------------
Divina Comédia

Paraíso

Canto XI
---------------------






1. Ó insensato cuidado dos mortais,

quão são os defectivos silogismos

3. os que os fazem baixo bater as asas!



Quem sob a iura e quem por aforismos*

guiado, e quem seguindo o sacerdócio,

6. e quem a reinar por força ou por sofismas,



e quem por roubar e quem por civil negócio,

quem no deleite da carne envolto

9. se afadigava e quem se dava ao ócio,



quando, de todas estas coisas solto,

com Beatriz me era para cima no céu*

12. assim gloriosamente acolhido.



Depois que cada um retornara ao

ponto do círculo em que antes era,

15. firmaram-se , como candelabro candente*



E eu ouvi lá dentro aquele luminar

que me havia primeiro falado , a sorrir*

18. iniciar, fazendo-se mais radiante:



“Assim como eu de seu raio resplendo,

também, resguardando na luz eterna,

21. a causa de teus pensamentos apreendo.



Tu duvidas e desejas investigar

em mais viva e extensa linguagem

24. meu dizer, que a seu escutar se externe,



quando antes disse: ‘O bem se nutre’ ,*

e onde disse: ‘Não nasce em segundo’;

27. aqui faz mister que se distinga .



A providência, que governa o mundo

com aquela reflexão pela qual toda aparência

30. criada é vencida antes de se ir ao fundo ,*



para melhor encaminhar a seu deleite

a esposa de quem a altos brados

33. desposou com seu sangue bendito*



em si segura e a ele mais fiel,

dois príncipes ordenou a seu favor*

36. que daqui e dali lhe fossem guia



Um foi todo seráfico em ardor;

o outro por sapiência em terra foi

39. de luz querubínea um esplendor .*



De um direi, pois que de ambos

se diz de um orando, a qualquer deles,

42. porque a único fim sua obra vem.



Entre Tupino e a água que descende

da colina eleita pelo beato Ubaldo,

45. fértil encosta do alto monte pende,



onde Perugia recebe frio e calor*

da Porta do Sol; e por detrás lhe plange

48. por grave jugo Nocera com Gualdo.



Dessa encosta, donde mais frange

sua rispidez, nasceu ao mundo um sol,

51. como este o faz às vezes no Gange*



Porém quem desse lugar fizer palavra,

não diga Assis, pois dirá pouco,

54. mas Oriente , se pretender falar próprio.*



Não era mesmo muito distante d’orto

quando começou a fazer sentir a terra

57. de sua grande virtude algum conforto



que por tal dama, jovenzinho, em guerra

contra o pai incorre, à qual, como à morte,

60. a porta do prazer ninguém descerra;



e perante sua espiritual corte

et coram patre se lhe fez unido;*

63. depois de dia em dia a amou mais forte.



Esta, privada do primeiro marido ,*

mil e cem anos, desprezada e esquecida

66. até ele permaneceu sem convite;



nem valeu ouvir que a encontrou segura

com Amiclate , ao som da sua voz*

69. desse que a todo mundo fez medo;



pouco valeu ser constante e feroz,

que, onde Maria permaneceu abaixo,

72. ela com Cristo sobre a cruz chorou.



Mas para que eu não proceda mui escuso,

Francisco e Pobreza, por estes amantes

75. tenha agora em meu falar difuso.



Sua concórdia e seus ledos semblantes,

amor e maravilha e doce resguardo

78. faziam ser causa de pensamentos santos;



tanto que o venerável Bernardo*

descalçando-se primeiro e atrás de tanta paz

81. correu e, correndo, lhe pareceu ser tarde.



Ó ignota riqueza! ó bem feraz!

Descalçado Egídio e descalçado Silvestre*

84. seguiram o esposo, assim à esposa apraz.



Depois se vai aquele pai e mestre

com sua dama e com aquela família

87. que já se unia pelo humilde cordel



Não lhe pesou de vileza de coração o olhar

por ser filho de Pietro Bernardone*

90. nem por parecer despeito a maravilha



mas regiamente sua firme intenção

a Inocêncio abriu, e dele obteve*

93. primeiro selo a sua religião.



Pois o povo mendicante cresceu

atrás dele, cuja vida admirável

96. melhor em glória do céu cantaria



de segunda coroa resgatado

foi para Honório pelo Espírito Santo*

99. na santa ânsia deste arquimandrita .*



E eis que, pela sede de martírio

na presença soberba do Sultão*

102. pregou Cristo e outros que o seguiram



e por encontrar a conversão acerba

junto à gente e para não ficar em vão,

105. regressa ao fruto da itálica erva.



na crua pedra entre Tevero e Arno

de Cristo toma o último selo*

108. que dois anos seus membros portarão.



Quando a ele que tanto bem distribuiu

aprouve de trazê-lo elevado à sua mercê

111. pelo mérito de seu ser humilde



a seus irmãos, como seus justos herdeiros,

recomendou a dama a si tão cara

114. e encomendou amarem-na com fé;



e de seu ventre a alma preclara

mover-se desejou, voltando a seu reino

117. e a seu corpo não desejou qualquer mortalha.



Pensa agora quem dele foi digno

colega em manter a barca

120. de Pedro em mar alto pelo reto sinal ;*



e esse foi nosso patriarca;

pois quem o seguir como ele manda

123. discernirá quão boas mercês arca



Mas seu tesouro de nova vianda

se fez ganancioso, assim não pode ser

126. que por diversos saltos não se perca;*



e quanto seu rebanho afaste

e vagabunde, mais para esse vácuo,

129. no retorno ao ovil há menos leite



Bem são aquelas que temem dano

e mantêm-se ao pastor; mas são tão poucas,

132. que a capa fornecida tem pouco pano.



Ora, se minhas palavras não são roucas

se tua audiência há sido atenta

135. se o que é dito à mente revolve



em parte tens tua vontade satisfeita ,*

porque verás a planta onde se machuca*

e verás o corrigir que argumenta:



139. ‘O bem se nutre, se não se devaneia’.” *

 
-------#--------------------#---------------
 
Notas (pelo número do verso)
 
4. Originalmente em latim, significando “direito”, no sentido de conjunto de regras que fornecem legitimidade sociopolítica para contrapor à expressão seguinte “aforismos”, como conjunto de regras morais. Logo, aqueles que se valem do direito e da moral vigentes como escudo de suas condutas.
 
11. No original suso, italiano arcaico, usado originariamente por D., derivado do latim “susu”, “sursum”, com significado para cima, elevar. D. transmite a ideia de que, livre das prisões terrenas, dos freios terrestres, ele, acompanhado de Beatriz, era elevado e sustentado no céu pela força dessa liberdade, num movimento dinâmico, continuado.
 
15. Em italiano fermossi, arcaísmo, para fermo, significando algo que permanece firme, imóvel, inalterado, fornecendo a ideia de firmamento; o círculo era tão firme como uma única peça. A figura do candelabro a seguir indica a força da luz proveniente de tal círculo: candelabro (peça única) incandescente.
 
17. Santo Tomás de Aquino conversava com D. no canto anterior
 
25. U’ bem s’ impingua: no italiano a expressão é mais árdua, ao mesmo tempo que mais poética, pois literalmente significa “ o bem se engorda”, no sentido de que ele pode ser alimentado com fartura.
 
27. S. Tomás percebe que D. não entendera o que fora dito nos vv. 96 e 114, respectivamente, do Canto anterior
 
30. D. usa da força da metáfora para fazer um jogo entre aparência e essência, pois a reflexão divina não necessita da primeira por já ter acesso direto à segunda. No original: “La provedenza, che governa il mondo / on quel consiglio nel quale ogne aspetto / creato è vinto pria che vada al fondo,”
 
33. A esposa refere-se à Igreja que se formou após a crucificação de Cristo.
 
35. A mesma Igreja ordenou dois príncipes (latinismo para chefes) S. Francisco e S. Domingos.
 
39. Serafins e querubins são os mais altos na hierarquia dos anjos, estando ambos próximos a Deus, contemplando, cada qual a seu modo, as dimensões da Trindade Divina e realizando sua angélica missão.
 
46. Tupino é um pequeno curso de água próximo a Assis, que se une ao rio Chiascio, o qual desce a encosta abaixo do monte Izimo, o refúgio de S. Ubaldo Baldassini. Entre os dois rios há um pendor íngreme que conduz à Perúgia.
 
51. Continua a lírica descrição do local, fazendo referência ao brilhar do sol quando este nasce na região do rio Ganges.
 
54. Ascesi: D. usa a forma antiga do italiano para o topônimo Assisi, fazendo um jogo semântico, pois no latim ascese significa ascender, subir, elevar-se, por isso Oriente. Francisco de Assis seria o Sol do Oriente.
 
62. Expressão latina, representa fórmula notarial para dizer casamento diante do pai.
 
64. Referência a Cristo, primeiro esposo da Pobreza, que com ele subiu à cruz na descrição dos versos subsequentes.
 
68. Amiclate: pescador que não se perturbou em virtude de sua pobreza e não se intimidou com a presença de Júlio Cesar em sua morada, durante a campanha de Durazzo, na guerra do último contra Pompeu.
 
79. Bernardo de Quintavalle: primeiro seguidor de S. Francisco, que era rico comerciante em Assis.
 
83. Egídio e Silvestre: também seguidores do santo; o primeiro foi autor do livro Verba Aurea e o segundo, presbítero.
 
89. Pietro Bernardone: pai de S. Francisco.
 
92. O papa Inocêncio III que inicialmente aprovou a regra franciscana, dando início à sua Ordem.
 
98. Honório III: papa que deu aprovação solene e indiscutível, ratificando a Ordem de S. Francisco.
 
99. Helenismo da linguagem eclesiástica significando pastor, padre.
 
101. Alusão ao trabalho de S. Francisco de divulgar a fé em terras do Egito e no Oriente por volta de 1219.
 
107. Referência ao episódio no qual S. Francisco apresenta no corpo as marcas do martírio de Cristo, o milagre dos estigmas.
 
120. Digno colega é S. Domingos convocado a seguir a missão de S. Francisco, fundando a Ordem dos Dominicanos, à qual pertenceu S. Tomás.
 
126. No original salti no sentido de mata cerrada, trilhas sem fim.
 
136. S. Tomás explica a primeira expressão “o bem se nutre”. A segunda dúvida será explicada no Canto XIII, vv. 46 e 47 e 89 a 108.
 
137. Refere-se à Ordem Dominicana que se afastou das orientações de seu mestre.
 
139. U’ bem s’ impingua,se non si vaneggia: conclusão sobre o modo de “engordar” o bem (v. nota 5). A idéia é que o bem engorda, se nutre, se alimenta, quando dele mesmo não se devaneia, não se divaga, i.e., o bem indica seu próprio caminho, enquanto o constói com suas próprias ferramentas. Por isto se alimenta de si mesmo, desde que não se perca sua orientação e seu fim em si mesmo. Seria simples demais entender aqui uma conclusão de ordem meramente moral, como uma parábola edificante. A par de sua riqueza lírica e linguística, no que tange à formação de imagens, trazendo pela via das palavras o vigor de matizes abundantes e diversas, o Paraíso, assim como as outras partes anteriores, aponta para a cosmovisão de D. Há um fundo filosófico de discussões que denotam a preocupação filosófico-política do florentino, que vai muito além daquela interpretação que vê na obra uma elegia à visão de mundo medieval, construída em torno da figura de Deus e da Igreja. Faz-se presente uma profunda e sutil (porque poética) crítica ao caminho qua a própria Igreja medieval percorria. Para aprofundar-se nesta questão veja GILSON, Etienne. Dante and philosophy. in: http://pt.scribd.com/doc/37349371/Dante-and-Philosophy-Gilson (acesso em 04.05.2011)
 
 
-----------------------#-------------------------------#------------------------------------
 
Tradução do Paraíso Canto XI, da Divina Comédia de Dante Alighieri, sem preocupação com a métrica ou com a rima, que não caracterizam a poesia contemporãnea, mas mantendo o ritmo do poema. A linguagem tem conotação  contemporânea para o leitor moderno ter mais facilidade de compreensão. A presente tradução, realizada direta do italiano, feita pelo prazer de fazê-lo e sem compromisso acadêmico, foi incentivada pelos meus amigos Adriano, Fábio e Felipe, a quem agradeço muito o apoio. Espero que possa ajudar o leitor atual da obra de Dante de algum modo, por isso o post.

Nenhum comentário: