domingo, 8 de maio de 2011

Heidegger e a hermenêutica do Dasein

Artigo publicado na revista
Conhecimento Prático: Filosofia nº 29











Este ano completam-se trinta e cinco anos da morte do filósofo alemão Martin Heidegger. Nascido em Messkirch aos 26 de setembro de 1889 e falecido aos 26 de maio de 1976 em Freiburg, ele é um dos principais filósofos do século XX, a par de ser um dos teóricos mais complexos e uma personalidade das mais controvertidas. Sua obra principal é “Ser e Tempo”, publicado em 1927.

Heidegger é alguém cujo pensamento não pode ser separado de sua própria existência, pois a leitura de sua biografia em paralelo à sua filosofia acaba por se complementar e formar uma rede teórica que, uma vez entendida em seus pontos principais, desenha uma totalidade que pode funcionar como fundamento para compreensão e crítica do século XX e deste início do século XXI. Vale dizer, o pensamento heideggeriano pode funcionar como uma chave de compreensão de toda nossa vivência nesse momento fluído e indefinido, para o qual os autores não conseguem alcançar um consenso, modernidade ou pós-modernidade.

O pensamento heideggeriano permeia não só a filosofia, como a psicologia, as ciências sociais e até mesmo o direito, incluindo alguns estudos sobre ciência da religião. Obviamente, seus críticos são muitos e isto também acresce interesse à sua obra, pois a discussão sempre aprofunda os pontos de debate.

Para uma apresentação de seu pensamento, o livro “Ser e Tempo” deve ser utilizado como fio condutor. Nele, Heidegger traz o que se pode chamar de Hermenêutica do Dasein, porque o autor evoca esta perspectiva para demonstrar a possibilidade de se entender o ser humano.

Como obra, “Ser e Tempo” é um livro que se compõe da análise de um fenômeno e de duas estruturas que constituem tal fenômeno. Dasein é o fenômeno e as duas estruturas são a historicidade e o cuidado. O livro é a conceituação e explicação dessa dinâmica assim constituída.

Dasein (pronuncia-se dá-zain) é uma palavra, da forma como utilizada por Heidegger, propriamente intraduzível em português, mas alguns autores fazem uma tentativa, normalmente, usando a expressão “ser aí”. Aqui a questão se refere mais ao ofício do tradutor-filósofo do que propriamente ao conceito. Alguns consideram um fracasso não traduzir o termo e outros entendem que efetuar a tradução é perder a força de seu vigor semântico, pois, uma vez mantida no alemão, a palavra obriga o leitor a um exercício de reflexão diferenciado, o objetivo de Heidegger. Nós preferimos manter a expressão no original por este motivo. Outros termos que podem ser encontrados são “existir”, “realidade humana”, “ser-lá”, “ser-no-mundo”. No texto brasileiro, a tradução é “presença”, mas esta escolha é muito criticada, pois ela remete a uma dinâmica etimológica não pretendida pelo autor e rejeitada por ele. Se a opção for pela tradução, o melhor termo é “ser-aí” (sein=ser e da=aí).

Vilém Flusser, em seu livro “Língua e realidade”, diz que a melhor tradução para Dasein é “estar aí”, pois em alemão não existe o verbo “estar”, como existe em português. Sein faz os dois papéis: “ser” e “estar”. Esta é a primeira chave para a compreensão do ser humano como Dasein: humano é algo que é ou está em algum lugar, aí. Este pequenino advérbio faz toda diferença e se verá porquê.

Na língua alemã, quase toda substancialidade conceitual pode ser feita por aglutinação. A língua portuguesa, por sua índole, já tende a substancializar os conceitos, dando a eles essência, por assim dizer, quase natural. O verbo “estar” normalmente “dessubstancializa” ações e conceitos, retirando sua carga essencialista, que a tradição filosófica do ocidente tende a manter. Assim, neste sentido, o “estar aí” representa melhor o significado de Dasein.

A professora Dulce Critelli, no seu livro “Analítica do sentido”, vai dizer que se pode entender o Dasein como sendo sinônimo de homem. Só que, ao longo do livro ela vai mostrando como o conceito se distancia desta idéia comum que se tem de ser humano. O Dasein, na verdade, é o homem na condição ontológica primordial, ou, mais ainda, na sua condição pré-ontológica. Dasein é uma forma de se compreender o ser humano, distinta de toda metafísica ocidental, principalmente do Iluminismo, o qual acabou por definir o homem como animal racional e a razão como sua essência.

Segundo Foucault, a figura do homem como sujeito nasce com o racionalismo, porque antes não se tinha esta preocupação, se bem que, no medievo, o homem era definido como ser dotado de alma e com capacidade de conhecer a verdade, o que significava conhecer Deus, um percurso único. Havia uma concepção de natureza humana definida pela alma, derivada do divino. Da mesma forma, na Grécia Antiga não havia essa preocupação de definir o que é o homem porque importava a ação humana diante do ambiente político. Já se tinha uma condição humana, não havia necessidade de se perguntar o que é o homem, mas, o que faz o homem. Havia a investigação pela racionalidade, mas ela não colocava unicamente a razão como ponto fundamental da constituição do humano.

No Iluminismo a natureza humana é definida pela razão. Toda essência humana é racional. Com Kant essa razão vai ser a síntese da percepção e isto é um passo além de Descartes. Para Descartes, o ser humano é uma coisa que pensa, mas o homem não é só uma coisa que pensa, segundo Kant, pois é um ser que tem a capacidade de perceber antes mesmo de pensar, ou seja, tem a capacidade, por meio da razão, de perceber o seu próprio pensar. Com Descartes e Kant, nasce a figura da subjetividade e do sujeito, respectivamente, as quais não existiam antes na filosofia.

Para Heidegger, a linha advinda dessa metafísica ocidental bateria numa única questão: a razão humana estaria diretamente ligada à idéia de ciência. Tudo que é humano é relacionado a conhecimento científico e toda ação humana é feita para adquirir ou produzir ciência, no sentido desse conhecimento. Esse conhecimento, por ser fruto da razão, como essência do humano, produziria ciência e tecnologia, ou seja, sob a finalidade de se construir uma vida melhor para o homem, o conhecimento deveria agregar tecnologia à ciência. E a razão passa a ser meramente instrumental. O homem é senhor de sua razão, que serve de instrumento para construir sua felicidade, por meio de conhecimento, cujo objetivo é transformar-se em ciência tecnológica.

Esse modelo de racionalidade nasce num espaço que Heidegger chama de Ocidente. Ocidente não é um lugar específico, não é a Europa, não é o norte da Ásia ou um pedaço da África ou da América do Sul. O ocidente é um espaço, onde foi construída a racionalidade, onde a racionalidade funciona como fundamento da definição da subjetividade.

Descobrir esse espaço é ao mesmo tempo descobrir seu percurso, porque esse foi um percurso problemático, pois não trouxe boas soluções. Apesar da racionalidade ser fundamento da construção do real e ter o sujeito como ator da realidade, os reflexos da realidade não são tão bons quanto se projetava que seriam. Apesar do desenvolvimento da ciência, apesar do esclarecimento, apesar da luz que foi jogada na razão e pela razão, o ser humano ficou incompleto.

Apesar do grande desenvolvimento tecnológico, do grande desenvolvimento de todas as ciências, duas Grandes Guerras envolveram todo o mundo conhecido. E isso já foi um golpe contra a idéia de racionalidade. Por quê? Porque se a razão permite conhecimento e esse conhecimento permite desenvolvimento que só faz o melhor para o homem, a tendência seria que a vida política, que é o laço das relações entre os homens, fosse o mais perfeito possível. Mas não foi. E as duas guerras mostraram isso.

Heidegger vai buscar uma resposta. Mas ele opta por uma critica profunda e radical. Essa crítica, ele a chama de “destruição”. Destruição não é o rompimento absoluto com todo o passado, mas a implosão das tradições por dentro, preservando as bases nas quais elas foram construídas. Destruição heideggeriana não é explosão do velho para simples instauração do novo; é uma retomada do antigo e uma releitura desse antigo para se verificar os erros que culminaram na modernidade iluminista.

Heidegger identifica um problema e tenta um recomeço. Mas como se realiza esse recomeço? Em termos históricos, não se muda o passado, não há volta ao passado, mas há a possibilidade de releitura desse passado, visando aplicar isso ao presente para alcançar o futuro. Esse é o projeto de Heidegger: destruir o passado e remontá-lo até conseguir, no aspecto positivo, uma projeção positiva de futuro. Há uma reconstrução constante.

Já se escapa, assim, do plano metafísico, pois não há ideal essencialista, não há um absoluto, como em Hegel, que se projeta, não há formas perfeitas, não há essência. Tem-se uma reconstrução histórica de algo que já foi feito. História é evento, não se muda. Logo, essa reconstrução histórica é uma releitura, portanto, uma reinterpretação. Eis o primeiro ponto da hermenêutica na metodologia heideggeriana.

Heidegger propõe a destruição por meio de uma releitura, uma desconstrução por outro mecanismo de interpretação. Um retorno ao momento em que se instaura o pensamento que vai produzir a racionalidade. Que momento é esse? A Antiguidade. Heidegger volta os olhos ao pensamento da antiguidade e tenta verificar onde nasceu a raiz que poderia gerar essa racionalidade. E, ao refazer o percurso de volta, encontra a raiz de tudo na ideia de logos. Heidegger vai mostrar que a razão ocidental, noção hoje transformada em razão instrumental, é a incorreta compreensão da expressão logos. Logos não é razão. A tradução original do grego significa discurso.

Discurso: mais uma vez hermenêutica agora aliada à questão da linguagem. Com efeito, ao falar de discurso, fala-se em troca de comunicação. Ora, se ao se falar de uma tradição de pensadores com os quais não se conviveu, a comunicação ocorre por meio de leitura. Ao falar leitura, fala-se necessariamente em interpretação. Ao se falar em discurso, fala-se assim em interpretação. No momento em que existe o discurso existe interpretação. Se existe uma interpretação constante porque existe um discurso constante, tem que haver um ser que consiga realizar todo tempo essa interpretação. Esse ser é o ser humano.

Mas ele faz isso por ser racional, com o uso do mecanismo da razão? Pode-se entender que o ser humano, definido como ser racional, é quem trabalha com discursos? Heidegger dirá não. A racionalidade não trabalha com discurso, mas com construção lógica de unidades de percepção de pensamento, as quais compõem a ciência. Para Heidegger, isto é inválido.

O que está errado é a compreensão do ser humano como ser racional. Desta forma, a pergunta passa a ser: o que é o ser humano? Mas, seria esta a pergunta certa? Adianta perguntar o que é o ser humano como essência? Se a pergunta for colocada desta forma, chegar-se-á ao caminho de Descartes. A pergunta tem de ser outra.

Heidegger lembra que ao se fazer uma pergunta tem-se certa noção da resposta. Só se pode perguntar sobre aquilo do que se tem alguma noção. Essa capacidade de ter noção sobre as coisas, de poder fazer perguntas, é a capacidade fundamental do ser humano. O ser humano é o ser que indaga e, ao indagar, busca respostas. Logo, ser humano é o ser que compreende o que pode indagar e compreende as respostas que tem de buscar.

O fundamento do ser humano está ligado à idéia de compreensão e não a de razão. O ser humano é aquele ser dotado de possibilidade de compreensão e não de pensamento. Pensamento é veículo da compreensão. Mas o ser humano compreende por estar em um lugar, em um tempo, num determinado lugar e num determinado tempo. Ser humano é o ser que é, num lugar e num tempo, é o ser que é “aí”, num lugar e tempo. É o Dasein.

Porém, o ser do humano não é possuir uma razão, antes, é ser enquanto está num espaço e tempo, questionando sobre seu lugar e seu momento. Questionando e respondendo, o ser humano compreende a si, enquanto habita um espaço, durante um tempo. Dasein, o ser que está aí, mergulhado na compreensão de si e do todo que o cerca. Não é a coisa que pensa, não é o animal racional, mas o ser que vive e compreende: o ser vivente no discurso, o ser vivente na hermenêutica, em sua própria hermenêutica, aquela do Dasein.

Dasein habita um mundo, aquele que sintetiza sua compreensão de seu espaço-tempo, coabitado por outros. Logo, o Dasein não é individualista, seu logos não é a razão instrumental, mas a possibilidade de compreensão de tudo que o cerca a partir de seu ser, com seu ser e de volta a seu ser, nunca de forma individualista. O Dasein é comunitário, pois convive num espaço-tempo com outros e com uma tradição herdada, decorrente de todo espaço-tempo da humanidade. Eis a historicidade. Não é um ponto cronológico, nem uma síntese da unidade da razão, mas o resultado de complexo processo humano, de toda humanidade, que faz o Dasein ser o que é e construir-se enquanto é, agindo como célula de construção e reconstrução constante da própria humanidade.

Para mergulhar nesse processo, o Dasein precisa liberar-se do véu da realidade, ou seja, do plano ôntico que habita e que lhe apresenta todos os fenômenos, dirigindo-se ao plano ontológico do ser de todas as coisas, vistas não mais como portadoras de essências, mas como sínteses de processos de compreensão. A partir da realidade, o Dasein busca o ser das coisas, não mais suas essências, porém, a adequada maneira de compreendê-las, a partir da tradição em que se encontra e utilizando os meios de que no momento e na atualidade dispõe. O Dasein busca no plano do discurso (plano ontológico) a compreensão (hermenêutica) do ser das coisas que estão no mundo e para ele se fazem aparecer como fenômenos (plano ôntico).

Essa busca somente se oferece ao Dasein se ele se propõe a isso. Aqui entra a estrutura do cuidado. Cuidado é a situação do Dasein, na qual ele direciona a si mesmo para buscar o ser de si e de todas as coisas que se lhe colocam como fenômenos.

Apenas no plano do discurso isto é possível, porque toda perspectiva ôntica, que apresenta o ente (as coisas, sejam objetos físicos ou intelectivos) são traduzidos por meio de interpretação para o plano do Dasein, o qual é unicamente ontológico, pois ocorre na e mediante compreensão.

Assim, Heidegger propõe a hermenêutica do Dasein, uma alternativa para se conceituar o ser humano, não mais como sujeito, não mais como senhor da razão, mas como um ser que habita, dentre outros, um mundo, o qual para sobreviver e existir exige sempre o cuidado.

Um comentário:

Jones F. Mendonça disse...

Uma apresentação do pensamento de Heidegger com uma rara clareza.

Muito bom.