sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Nietzsche: o humano como memória e como promessa

Resenha por mim elaborada originalmente publicada no Guia Livros da Folha de São Paulo do mês de outubro de 2013.


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Nietzsche é um dos filósofos mais citados quando alguém quer se apresentar como intelectual, talvez pela forma de aforismos em grande parte adotada. Para quem pretende verdadeiramente mergulhar em seu universo, vem à luz obra de fôlego do professor de Filosofia da Unicamp, Oswaldo Giacoia Jr.

O autor, em seu conjunto de ensaios, mantém como linha central a construção de um conceito de homem – ou, além-do-homem – retratando a essência da crítica nietzscheana à metafísica.

São abordados os temas básicos de niilismo e superação, em sua relação direta com a vingança, meios para se transpor a noção kantiana de dignidade da pessoa – e, portanto, a errônea ideia de exaltação do super-homem como modelo – para se buscar a efetiva plenitude do humano, como ser vivente único em sua própria existência.


Avaliação: ótimo

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Nietzsche: o humano como memória e como promessa  -  Oswaldo Gacoia Jr

Opisanie Swiata - Veronica Stigger

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Com “Opisanie Świata”, Verônica Stigger lança seu primeiro romance, depois de trajetória bem sucedida de contos. Mesmo com a estrutura narrativa mais longa, a autora conserva seu estilo de condensar frases, cartas, anúncios de jornal e expressões para lançar o leitor, em companhia do protagonista, a uma viagem de retorno à Amazônia.

Nela, misturam-se ficção e realidade a começar de personagens cuja figura não tem apoio absoluto em nenhum dos campos. A mistura se faz presente também num diálogo intenso de formas diversas e autores diferentes, com certa pitada de Sebald, dentre outros, além de referências externas à literatura.

O resultado é delicado trabalho de compreender o universo através da narrativa, pois se escreve “para não esquecer” ou “fingir que não esqueceu”. Talvez sobre “o que nunca existiu”.


Avaliação: ótimo

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Opisanie Świata - Veronica Stigger
Resenha por mim elaborada para o Guia Livros da Folha em outubro de 2013


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terça-feira, 17 de setembro de 2013

Rede Social



Tramas eletrônicas
Em sítio virtual
Nasce a oferta
De mundo real

Plena a conexão
Construída numa tela
E todo o humano
Simples imagem dela

Local da existência
A linha do tempo
Faz da experiência
Mero passatempo

Fotos, status, arquivos
Constroem relacionamentos
Milhões de bits
Substituem sentimentos

Conversas no bate-papo,
Viver é compartilhar!
Todos conectados
No PC ou celular

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sábado, 31 de agosto de 2013

A Educação dos Cinco Sentidos

Elaborei essa resenha do livro de Haroldo de Campos para o
Guia Livros da Folha de São Paulo




Leia também a versão que relaciona a poesia com a formação do Operador do Direito
(clique aqui)
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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Poemeto Pluriparental





Ninguém é de ninguém
E todos, de quem?

Quando o 1º marido
Encontra o atual,
Qual cumprimenta qual?

Reflete um a burrice
Que cometeu o outro
Em separando
Ou se juntando?

Quando o 2º marido
Vê a ex-mulher
Com o 1º amante,
Quem deve pagar
A conta no restaurante?

E o homem número 1
Que visita o quatro,
Não recorda algum
Papel nesse teatro?

Se o filho da mulher primeira
Namora uma filha da terceira
- Eita bagaceira!
É incesto ou ocasião
Que promove comunhão?




(homenagem a Millôr)

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Decálogo do escritor





I – Pense antes de escrever. Qualquer tipo de escrita, antes de tomar forma de texto, deve existir na mente do autor.

II – Escreva para os leitores e não para si mesmo. O texto é um diálogo do autor com outros e não consigo mesmo. Escrever para si mesmo resulta em excesso de subjetividade e falta de clareza.

III – Não peça para amigos avaliarem seus textos. Muitos elogios são apenas fruto de sociabilidade. A avaliação deve ser feita por quem realmente analise seu trabalho, mesmo que seja seu amigo.

IV – Copiar estilos é normal para quem se inicia, afinal há muitos bons exemplos de escrita agradável, sedutora e bem sucedida. Escrever uma grande obra é o sonho de todo escritor e nada melhor do que beber em fontes seguras.

V – Busque seu próprio estilo. Há sempre um modo novo, interessante ou curioso de abordar um tema. A melhor forma de naufragar é tentar ser quem não se é. Alguns possuem habilidade para textos literários, outros para textos técnicos; alguns demonstram aptidão para ficção nas suas mais variadas formas, em prosa ou poesia e outros, para não-ficção. Descubra seu lugar.

VI – Seja claro, simples e objetivo. Se o leitor tiver que ler várias vezes o texto para entendê-lo, o trabalho está mal escrito.

VII – Não queira tornar-se um bom escritor antes de ser um bom leitor. Estude e leia tudo que estiver relacionado a esta atividade. Na escrita, 99% é trabalho e 1% é inspiração. Há muitos autores que se nomeiam autênticos porque não querem conhecer seus predecessores.

VIII – Pense sempre no leitor. Se for uma história ou ficção, como o leitor deve tomar conhecimento dela de forma a estimular suas sensações? Se não é ficção, que informações ele deve encontrar para que mereça sua leitura?

IX – Respeite seu argumento. A diferença entre conversar sobre um tema e apresentar o mesmo tema num livro é que o autor deve gastar todo o tempo possível na elaboração da idéia central e na forma de transmiti-la.

X – Ao descobrir o argumento, estruture uma ordem crescente de desenvolvimento e crie elementos para manter o interesse em todo o texto. Elabore a linguagem de modo singelo, sem afetação ou pedantismo e crie imagens na cabeça do leitor.

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quinta-feira, 20 de junho de 2013

Poetar














Poetar 
Sendo
Não sido

Existir
Ex-sistindo
In-sistindo
Não insistido

Aparecer
Apare-sendo
A-par-sendo
Não parecido

Construir
Co-instruindo
Des-(ins)-truindo
Não instruído

Sentir
Sem-(s)ação
Com(o)-(a)ção
Não co-movido

Rimar?
Com sentimento
Consentimento
Com-sentido


domingo, 26 de maio de 2013

Fernando Pessoa - Antologia Poética

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Guia Livros da Folha de São Paulo - março de 2013
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Antologia Poética

Autor: Fernando Pessoa (org. Cleonice Berardinelli)
Editora: Casa da Palavra
Quanto: R$ 42,90 (336 págs)

Avaliação: ótimo





Antologia não é tarefa fácil, adverte a organizadora Cleonice Berardinelli, principalmente sendo o poeta não um, mas vários, como Fernando Pessoa, dividido entre seus heterônimos. Resulta positiva quando a antologista carrega consigo a convivência de seis décadas de profundo mergulho no universo do poeta, a ponto de identificar leitura diversa (e correta) em face da sólida edição portuguesa adotada como referência.

Professora emérita da UFRJ e da PUC-RJ, sua paixão pela pesquisa fica evidente – melhor, manifesta, para usar a expressão tema da costura do trabalho. “Manifestar-se” é a característica poética de Pessoa que alimenta a organização da obra. Ao tomar contato com esta materialização, o leitor prova do mesmo “mágico veneno” outrora oferecido à organizadora e deixa-se navegar impreciso em sua leitura.




Chaplin e outros ensaios


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Guia Livros da Folha de São Paulo - março de 2013
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Chaplin e outros ensaios

Autor: Carlos Heitor Cony
Editora: Topbooks
Quanto: R$ 41,90 (290 págs)

Avaliação: Bom







Carlos Heitor Cony é conhecido pelo brilhantismo de seus romances e crônicas. Agora, pode-se tomar conhecimento do outra faceta sua, a de ensaísta. Reunindo ensaios escritos a partir de 1959, “Chaplin e Outros Ensaios” busca a diversidade da pesquisa e assuntos sem aparente linha comum. Aparente porque a leitura expõe um ponto fundamental de acesso: a amplitude do desejo de conhecer. Aliada, está a capacidade de propagar tal desejo de forma agradável e facilmente compreensível, sem excessos e rebuscamentos.

Partindo do cinema de Chaplin, Cony faz um passeio da literatura latina ao romance, atravessando a ficção e a poética brasileiras. Há até mesmo espaço para pensadores de inclinação cristã, como Teilhard de Chardin e Tomás de Aquino, deixando explícito o caráter plural da obra como essência do ensaio.


A sacralidade da pessoa

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Guia Livros da Folha de São Paulo - março de 2013
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A Sacralidade da Pessoa: nova genealogia dos direitos humanos

Autor: Hans Joas
Trad: Nélio Schneider
Editora: Unesp
Quanto: R$ 20 (304 págs)
Avaliação:ótimo




Direitos humanos é expressão de ordem do dia. Ao questionar sua fundamentação em “A Sacralidade da Pessoa – Nova Genealogia dos Direitos Humanos”, Han Joas foge do lugar comum de relacioná-la com a tradição judaico-cristã ou incluí-la no universo do iluminismo. Apresenta, ao contrário, tese pouco convencional de que a noção universal de dignidade humana resulta de complexo e profundo processo de sacralização da pessoa.

Diretor do Centro Max Weber da Universidade de Erfurt (Alemanha), Joas busca verificar a gradativa passagem da compreensão do ser humano como sagrado, não sob caráter religioso, mas pelo prisma secular da evidência subjetiva e intensidade afetiva.

Para tanto, ele se socorre de argumentos fundamentadores e reflexão histórica, conectando-os de modo específico, sem buscar apoio na perspectiva filosófica do suposto caráter da razão prática ou do dever moral.


quinta-feira, 11 de abril de 2013

Dante: entre o ser e o não-ser

Por João Ibaixe Jr

Publicado originalmente na Revista Celuzlose nº 08  (acesse aqui)


Dedicatória

Aos leitores de Dante

Aos apreciadores da leitura visual da Divina Comédia por Salvador Dali

A Lover Ibaixe e Paulo Altomani, novos admiradores de Dali e da Divina Comédia

A quem pretender conhecer o Instituto Ibaixe



Canto XI do Paraíso da Divina Comédia de Salvador Dali













Para este trabalho, tomamos como texto principal a clássica obra A Divina Comédia de Dante Alighieri. A leitura que nos interessará analisar para apresentar uma interpretação será a do Canto XI do Paraíso, uma vez que sabemos que a obra apresenta riqueza de abordagens, tanto no seu sentido de poesia quanto no de conteúdo. Em sua totalidade, é comumente considerada como uma síntese de todo o pensamento ou cosmovisão de uma época, referente ao final do século XIII e início do XIV.

Como instrumento de auxílio nesta leitura do trecho indicado, utilizaremos a proposta apresentada por Erich Auerbach, em seu ensaio Figura (São Paulo: Ática, 1997), no qual ele nos remete a um modelo interpretativo denominado de interpretação figural. Segundo o citado autor (1997:46) a idéia central de tal modelo reside no estabelecimento de conexão entre dois acontecimentos ou duas pessoas, em que o primeiro significa não apenas a si mesmo, mas também ao segundo, enquanto o segundo abrange e preenche o primeiro. A importância deste modo de leitura é que ele se compromete com o caráter histórico dos acontecimentos, trazendo-os a uma realidade concreta e não permitindo etéreas divagações idealistas. Ou seja, permite crítica não hegeliana da lição de Hegel para quem todo estudo é uma análise do conceito no tempo, pois recusa categorias hipersubjetivas de análise e coloca os autores, o Poeta no caso, sempre num plano histórico, em que a obra aparece como uma coisa mesma para a qual se volta e da qual se retira algo vivencial para o leitor.


O Canto XI do Paraíso narra o encontro entre o Poeta e Santo Tomás de Aquino, que identificado no Canto anterior, passa a relatar a biografia em modo muito específico da vida de São Francisco, entre os versos 43 a 117, concluindo ao final com resposta à pergunta, também anterior do Poeta: por se nutrir no bem, se for cuidadosa.

Divulga-se largamente que a Comédia narra não apenas a visão medieval do pósmorte, mas o percurso necessário ao homem para o encontro com o Bem, vale dizer, o percurso do homem para a sabedoria. Este aspecto não mais é questionado, sendo pacífico na interpretação e daqui nasce o ponto que nos interessa no Canto XI. Se a obra relata o percurso para o Bem, como pode ser ele realizado praticamente mesmo por aqueles que não possuem Virgílio e Beatriz por guia?

De acordo com a lição de Auerbach, vemos na obra que todos os personagens são apresentados a Dante de modo direto e a única oportunidade em que isto não ocorre está sediada no Canto XI, pois São Francisco tem sua vida contada de forma indireta por Santo Tomás. É o grande expoente da racionalidade teórica medieval, Tomás, que apresenta Francisco, por sua vez grande expoente da prática do amor católico daqueles tempos. Não é por outro motivo que Chesterton escreve a biografia dos dois Santos, justificando seu trabalho exatamente por este aspecto: Tomás representa o ápice da sabedoria cristã e Francisco, o do amor cristão.

Para responder à angustia de Dante, Santo Tomás relata a vida de Francisco, que nos versos 52/54 é apresentado como nascido do raio de sol (não diga Assis... mas diga Oriente) e, depois de descrever com toda a beleza de forma e linguagem a ruptura com seu pai, nos é relatado o casamento de Francisco, com a viúva naquele momento de mais de mil anos, por todos desprezada e por ninguém mais até ali amada. Ela era antes a mulher de Cristo, que com ele subiu à cruz, enquanto mesmo Maria a seu pé permaneceu. Quem era essa mulher? E Tomás nos esclarece que se tratava da Pobreza.

Francisco unira-se a profundo relacionamento com a Pobreza, a quem somente Cristo desposara. Socorrendo-nos uma vez mais de Auerbach, a luta de Francisco não se traduzia simplesmente pela recusa aos bens familiares, mas por uma luta pelo alcance daquilo que mais desejava e amava. Era a penetrante e profunda busca da Pobreza em nome do amor. O movimento franciscano, ocorrido em sua biografia, foi o mesmo de Cristo em sua história: a união com a Pobreza. Neste ponto, concluímos com Auerbach que toda história do mundo depois de Cristo está, para Dante, contida na imagem do noivo, que vai ao encontro de sua bem-amada. A vida de Francisco, narrada indiretamente para destacar sua missão, apresenta-se como um modelo real, de alguém que historicamente imitou Cristo.

Este modelo não é simplesmente ideal ou moral, ele se concretizou no mundo, como objeto de uma procura esforçada, como uma investigação, como uma busca real. Há a superação de uma essência contemplativa, para o alcance prático de uma conduta, para a realização de uma práxis direta e imediatamente fundada na vida. É a existência que permite a imitação do modelo; não se supera a realidade, vive-se intensamente nela e dela. É no decorrer da vida que se concretiza a lição real de São Francisco.

Para Auerbach, o leitor medievo tinha consciência deste modo de leitura, denominado pelo citado autor de interpretação figural. É o leitor moderno que precisa do suporte da pesquisa para compreendê-lo.

Neste momento, procuramos ir pouco além do grande ensaísta alemão e cumprir a tarefa a que nos propusemos. Para o leitor moderno, nesta época da pós-modernidade, em que a racionalidade é o único pressuposto de qualquer práxis, de qualquer vínculo social ou moral, como poderia ser aproveitada a lição de Dante?

Como vimos, embora rica em sua metafísica, a concepção de Dante exige uma prática real, um exercício vivencial da vida de Francisco, como ele a viveu. Mas o que seria hoje casar-se com a Pobreza? Em que canto esta mais uma vez viúva poderia ser encontrada? Largar tudo, viver na miséria, seria a solução para uma sociedade pós-industrial, mediada por economia de mercado, cuja produção visa não mais a mercadoria, porém o conhecimento?

Dante certamente jamais chegou a pensar num modelo social moderno, mas os grandes autores têm o condão de, lembrando Ítalo Calvino, nunca terminar de dizer aquilo que tinham a dizer e que devem ser lidos para entendermos quem somos.

Por trás da alegoria do casamento com a Pobreza, o que há? Lembremo-nos quem foi seu primeiro marido: Cristo, historicamente a concretização divina. Vida na terra do princípio divino, sem qualquer especulação sobrenatural. Cristo desposa a Pobreza por amor e, desta união, decorre também amor.

Lembremo-nos de outro modo de se compreender o amor: a figura de Eros, que representa o amor na mitologia grega. Numa das principais versões, retratada, por exemplo, no Banquete de Platão, Eros nasce da união entre dois deuses, Poros e Pênia.

Poros é abundância, a plenitude de recursos, enquanto Pênia representa a penúria, a paupertas, a ausência de qualquer recurso. Num banquete, Poros, embriagado com vinho – lembrando a dionisíaca atitude de relação com a vida – acaba por se aproximar de Pênia e esta cria a oportunidade de ambos gerarem um filho, Eros, o amor, que para sempre fica caracterizado pela dialética entre a abundância e a pobreza.

Numa sociedade consumista como a nossa atual, fica fácil a analogia entre ter (abundância) e não ter (pobreza). No nosso modelo hodierno, fica também fácil dizer que ter é ser e não ter é não ser. O que significaria isto para Dante, uma vez que ele não vivia numa sociedade pósmoderna?

Se Cristo era a divindade em sua dimensão histórica, ele era a representação do Todo na concretização do tempo, enquanto a Pobreza aparecia como a figura desprezada que nunca tivera nada e nunca fora nada. A união do Todo com o nada configura não só um modo de expressão entre várias mitologias, como também o princípio explicativo de formação do universo em várias regiões. A idéia de nada representa o oposto do ser, que é o não-ser.

Mas Cristo era o divino na terra e Francisco, mais terreno ainda, era um homem, um ser vivente humano. O que Dante descreve é a união concreta entre um homem e o nada (não-ser), uma realidade prática, um acontecimento concreto, efetivamente real.

O homem é um ser, como dito, ser vivente humano. Logo, Francisco representava a existência de um ser que se dedica e se entrega ao não-ser e sua vivência passa como traduzida por esta relação. Francisco é ser, enquanto a Pobreza é não-ser. Desta união amorosa nascida pela entrega amorosa, renasce o amor que ilumina sua trilha exemplar.

Eis a lição de Dante, figurada na suavidade do poema, indiretamente narrado pelo maior representante da racionalidade católica, sobre a vida do maior representante da caridade católica, lembrando Chesterton. A lição de Dante que até hoje pode ser aproveitada não se limita a ter ou não ter, mas indica o percurso para o amor, que se encontra na relação sempre desejada e constante do ser e não-ser. O amor, historicamente realizado na experiência narrativa da vida de Francisco, pode ser hoje vivenciado do mesmo modo. Um homem em si, Francisco, Alberto ou Pedro, é um ser, um todo em si mesmo, uma totalidade. O não-ser é sempre outro, homem, mulher ou comunidade, pois em relação ao primeiro, não é uma totalidade; é um não-ser, pois se apresenta como um infinito campo de possibilidades.

Dante – não nos esqueçamos, sempre alguém preocupado com a vida política – nos transmite a noção de que para uma verdadeira relação na polís há que haver a concreta relação dialética entre o ser (que cada um é) e o não-ser (que a comunidade em que estamos representa). Da relação histórica, não ideal, entre ser e não-ser que nasce a verdadeira política ou o verdadeiro amor.


BIBLIOGRAFIA

AUERBACH, Erich. ‘Farinata e Cavalcanti’. In: Mímesis (p.151-175). São Paulo: Perspectiva, 2009.
AUERBACH, Erich. Dante: poeta do mundo secular. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997.
AUERBACH, Erich. Ensaios de Literatura Ocidental. São Paulo: Editora 34, 2007.
AUERBACH, Erich. Figura. São Paulo: Ática, 1997.
BORGES, Jorge Luís. La Divina Comedia. In: Siete Noches -1981 (Obras Completas, vol.3, p.207-220). Buenos Aires: Emecé, 1994.
BORGES, Jorge Luís. Nove Ensaios Dantescos. Lisboa: Presença, 1984.
DE SANCTIS, Francesco. Ensaios Críticos. São Paulo: Nova Alexandria, 1993.
ELIOT, T.S. ‘Dante’. In: Selected Essays (p.237-277). London: Faber & Faber, 1953.
LEWIS, R.W.B. Dante. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
MANDELSTAM, Osip. Coloquio Sobre Dante. Madrid: Visor, 1996.
MARTINS, Cristiano. ‘A vida atribulada de Dante Alighieri’. In: ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia (p.23-97). Belo Horizonte: Itatiaia, 1979.
STEINER, George. Sobre la dificultad y otros ensayos. México: Fondo de Cultura Económica, 2001.
STERZI, Eduardo. Por que ler Dante. São Paulo: Globo, 2008.

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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Oração a Eros

“O cristianismo deu veneno de beber a Eros; mas este não morreu, degenerou-se em vício”. (Nietzsche) 




“Deus é amor e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (João: I/4,16) 







Ouvi minha oração, mundo
Que ouve somente violência!
Se Amor é fundamental
onde está sua existência?

Amor, repleto de significados
Compreensão desencontrada
Amor à pátria, à profissão, 
                                           aos amigos
Aos pais, ao próximo,
                                           à namorada.


Eros, Filia e Ágape
Na Antiguidade,
Cada um espectro
De integrada identidade


Filia amor do amante
Desejo em plenitude
Amor do Filósofo à sabedoria
À verdade, ao bem 
                                           à virtude


Ágape, amor do amante
Do outro a descoberta
Expressão da experiência
Na individualidade 
                                           aberta


Eros? É deus
Senhor da criação!
Diziam Homero e Hesíodo
E Sócrates a Fedro, 
                                           em Platão


Eros, dom da inspiração!


Ascensão e loucura profética
Doce arrebatar d’ alma
Na real arte poética

Eros, causa primeira
Ânimo da existência
Sublimar amplo
Decurso em vivência

Não à estática da posse!
Eros é devir movimento
Eternidade e constância
Puro aperfeiçoamento

Eros, plenitude do amor!


Eros, desejada divindade,
De veneno embriagado,
Não morreu
tornou-se viciado

Quão grave pecado!
Ouvi a prece, oh, Eros
Não nos deixeis

        abandonados



Jan.2013